Carlos André Moreira
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carlos.moreira@zerohora.com.br
Daniel McGarr para no meio da pista gramada, ajeita os óculos sobre o nariz, mete as mãos nos bolsos e lança um olhar atento ao redor, abrangendo na mirada as 10 vacas leiteiras da raça jersey que desfilam em círculo à sua volta. O rosto muito vermelho torna quase brancos os cabelos e o cavanhaque grisalhos — o que, combinado com o chiclete que masca o tempo todo, parece tornar ainda mais severo o olhar sisudo que dirige ao gado à sua frente, que concorre na categoria Vaca 3 anos, júnior.
Em vídeo, confira um dia na vida de Daniel McGarr:
Nascido em 1949 no Estado americano de Nova York, McGarr estava na Expointer como convidado da Associação dos Criadores de gado Jersey do Rio Grande do Sul para arbitrar os melhores exemplares da categoria — até ano passado, a associação costumava trazer canadenses, mas uma parceria feita este ano com o consulado americano determinou a vinda de um juiz ianque.
São 15h20min de uma tarde de quarta-feira. McGarr já havia passado o dia anterior no Parque de Exposições e voltaria na manhã seguinte para novo julgamento, de gado holandês — em sua fazenda na cidade de King Ferry, no estado de Nova York, ele é criador das duas raças, o que lhe credencia a ser jurado com experiência internacional e passagem por feiras agropecuárias em países como Colômbia, México e República Dominicana. A Expointer é sua primeira atuação em terras brasileiras.
McGarr olha o animal de perfil, afastando-se cinco passos. Depois, caminha até o espaço entre uma vaca e outra e posta-se de modo a ter uma visão do traseiro e dos úberes — é assim, explica, que esquadrinha o potencial das possíveis campeãs.
— Procuro pelas características físicas que indicam que o animal dará muito leite por bastante tempo: bom tamanho, pescoço longo e magro, costelas formando uma caixa larga e bem-proporcionada, ligamentos fortes sustentando os uberes.
Na pista, McGarr quase não fala. Com gestos de mão, envia as vacas para que formem, no fundo da pista, uma linha, com os quartos traseiros voltados para ele. Coça a cabeça e, por um momento, hesita entre Upsala Gerônimo, da cabanha Via Láctea, de Taquara, e Duti Valentin, da Cabanha da Maya, em Bagé. A mão passeia sobre o dorso de uma e de outra até que, com um toque nas costas do animal, decide a vencedora: Duti Valentin.
Com passos curtos, McGarr caminha até a aparelhagem de som, apanha o microfone e justifica sua escolha, em inglês, em palavras que serão traduzidas por um intérprete: a vaca vencedora tem, sobre a segunda colocada, a vantagem de ser mais comprida, ter as costelas mais parelhas e "excelentes úberes" — juízo que McGarr confirmaria mais tarde, com Duti Valentin também escolhida como melhor úbere dentre as vencedoras.
— Quando julgo um concurso como este nos Estados Unidos, minhas explicações costumam ser mais detalhadas. Como aqui preciso de intérprete, simplifico minhas considerações ao máximo para garantir que a tradução seja fiel ao que eu disse.
A barreira do idioma vai criando alguns problemas à medida que entram na pista as categorias dos exemplares mais velhos. McGarr precisa muitas vezes chamar o intérprete para perto de si para traduzir suas perguntas aos tratadores: "Qual a idade do animal?", "Há quanto tempo está em lactação?", "Quantas crias já teve?". Um pouco demais para as únicas três frases que ele sabe em português, ensinadas por um de seus filhos, que mora em São Paulo:
— Bom dia, obrigado e tri-legal — conta.
McGarr aprendeu tanto sobre gado na fazenda em King Ferry que leva o sobrenome da família — sobrenome escocês, embora as raízes sejam irlandesas. Mais do que um empreendimento, a fazenda Mcgarr é praticamente sua irmã mais velha.
— Meu pai abriu a fazenda em 1947 e eu nasci em 1949. Fui fazendeiro até antes de nascer — diz o americano, criador desde 1972.
McGarr aproveita os intervalos do concurso para passear pela Expointer, que não conhecia e que o impressionou. Depois de deixar as fileiras de vacas, aprecia as conversas com quem encontra pelo caminho. Fora da pista, é um homem simpático e sorridente. Não que já não houvesse indícios disso na gravata que usa - e cujo estampado, indistinto à distância, de perto revela-se fileiras alternadas de vacas de pelagem clara e escura sobre fundo vermelho.
— O melhor deste trabalho é viajar para lugares em que eu encontro muitas pessoas que se interessam pelas mesmas coisas que eu. As pessoas são a melhor parte.
McGarr talvez volte ao Brasil com mais frequência, diz ele, uma vez que James McGarr, um de seus quatro filhos, mora em São Paulo. Jim, como o pai o chama, trabalha com consultoria e pesquisas de marketing e veio passar dois meses no país em janeiro. Está aqui até hoje.
— Ele ama o país, e agora está namorando uma bela brasileira. Uma hora dessas terei um neto brasileiro — brinca, sorridente.
ZERO HORA