Sistema de saúde prioriza atendimentos com maior valor de mercado, diz especialista

Esta semana, o programa Direto ao Ponto se afasta um pouco do agronegócio para falar sobre um tema caro a todos: o valor da saúde humana. A conversa é com o professor e especialista em saúde pública, vigilância sanitária e previdência Luiz Roberto Pires

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Pelo artigo 196 da Constituição Federal, “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Mas, para Luiz Roberto Pires, o texto é utópico quando se encara a realidade brasileira. “Nada mais complicado e prejudicial do que tratar igualmente os desiguais. Temos estados e cidades com tratamentos adequados, mas outros extremamente precários”, afirma. 

Domingues revela que um dos maiores problemas do sistema é o modelo americano adotado, que o monetiza, ou seja, prioriza alguns atendimentos em função do seu valor de mercado. No caso da saúde pública, este é o problema para não se ter acesso rápido em diversos procedimentos: ou se extrapolou o teto de gastos do governo ou não é vantajoso investir. 

“Se eu vou fazer um raio X, o sistema público vai receber R$ 4. Para fazer o eletrocardiograma, vai ganhar R$ 14. Se o sistema é financeiro, eu vou direcionar para aquilo que eu receba mais recursos. Assim, tenho áreas de carência gritantes nesse processo”, diz. 

A carência dos profissionais também pode ser explicada por essa lógica. “Ninguém acha pediatra no Brasil. Você vai no plano de saúde e tem pouquíssimos, porque pediatra não gera receita. Se você vai no cardiologista, o plano recebe o dinheiro da consulta e ainda vai gerar exames. A participação dele gera receita. Enquanto o pediatra só faz a consulta e encaminha para outro profissional”, explica. 

O especialista diz que, por um levantamento da Anvisa, foi verificado que 90% dos procedimentos de ressonância magnética realizados pelos planos poderiam ser substituídos por um raio X. 

Por isso, de acordo com Domingues, tanto profissionais quanto pacientes são mercadorias para o sistema de saúde privado. “Você é alguém que precisa gerar lucros para o plano. Ele precisa ter maior rentabilidade em cima de você, como tem profissionais que valem mais do que outros”, afirma o especialista. 

Avaliação 

Embora o Brasil tenha melhorado o acesso ao sistema público, o próprio sistema precisa ser revisto para, de fato, atender o que a constituição prevê, na visão de Domingues. Ele explica que diferente da tecnologia usada num computador, por exemplo, que ao ser lançado já perde valor de mercado, as aplicadas na saúde só aumentam. 

“A saúde é cara. Mas é preciso analisar, será que está faltando dinheiro ou o sistema está desequilibrado?”, afirma o especialista.