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QUALIDADE DE GRÃOS

Percevejo interfere na qualidade da soja e nos custos do produtor

Último programa da série Qualidade de Grãos relembra os cuidados que os produtores de soja e de semente devem ter com o inseto e o prejuízo que ele acarreta ao produto final

Na última edição do Qualidade de Grãos, você vai ver tudo o que tratamos à respeito de uma das principais pragas para os produtores de soja: o percevejo. O inseto pode reduzir a produtividade e qualidade do produto, além de subir os custos de produção.

A equipe de reportagem andou por milhares de quilômetros, passando pelas principais regiões produtoras de soja para ouvir a opinião de produtores e especialistas. Por onde passou, o relato é sempre de que o percevejo é uma das pragas que mais preocupam os produtores brasileiros. O principal motivo são os danos causados, que interferem diretamente na renda dos agricultores.

Monitoramento

Na Embrapa Soja, em Londrina (PR), os trabalhos em torno do percevejo se transforam em orientações e recomendações técnicas oficiais para o controle da praga.

– A importância do percevejo no sistema da soja é por conta de que ele causa um dano direto. Ou seja, afeta naquilo que o produtor colhe. Na cultura do milho, ele costuma atacar na fase inicial, quando o milho ainda está se estabelecendo, no primeiro mês. Isso pode prejudicar a correta formação da planta do milho. Dependendo da cultura da soja, ela pode ter uma importância maior ou menor, tem um contexto da inserção dos percevejos como praga – comenta o pesquisador da Embrapa Soja Samuel Roggia.

Perguntamos qual seria o dano que o percevejo pode causar em uma lavoura de soja, causo não exista controle.

– A gente estima que seja algo entre 10 e 20%. É óbvio que em algumas regiões sequer é necessário o controle de percevejos, já em outras regiões a intensidade é tão grande que requer quatro pulverizações durante toda a safra. Há uma diversidade muito grande com relação ao ataque de uma região para outra. De um modo geral, a perda é de 10 a 20%, caso não tenha nenhum tipo de controle – responde Roggia.

O pesquisador explica como fazer a identificação do percevejo marrom, o mais importante na cultura da soja.

– O percevejo tem um aspecto marrom, tanto na parte superior quanto na parte inferior do corpo dele. A parte ventral dele, por baixo, tem um aspecto marrom. É lógico que isso varia de percevejo para percevejo, mas, de um modo geral, eles têm uma parte ventral marrom. Enquanto que outras espécies têm colorações diferentes. Ele tem uma projeção vulgarmente, muitos chamam de guampas e tem duas projeções anteriores, que são bem características dessas espécies – ressalta.

Os percevejos podem ser identificados também pelo aparelho bucal, ou estilete, como é chamado. É uma ferramenta que o percevejo usa para penetrar o grão e se alimentar.

– De um modo geral, os percevejos que atacam as plantas têm um estilete fino e comprido que vai além, olhando ele na parte ventral, olhando na parte de baixo do percevejo, o estilete é muito pequeno e difícil de ser visto, se não tiver o olho tão preparado. Ele é tão comprido que vai além da inserção da última perna dele, vai até a metade do comprimento da metade do corpo, se olhado ventralmente – continua.

Existem centenas de espécies de percevejo, mas o marrom é o mais prejudicial à soja. Embora a espécie barriga verde também esteja começando a causar problemas. Entretanto, existe uma em especial que o produtor precisa aprender a identificar e não contabilizar no pano de batida: o percevejo predador. Este é amigo do produtor, pois se alimenta de lagartas e não causa problemas à oleaginosa.

– A gente tem encontrado percevejos que são predadores. Neste caso, ele ataca a lagarta. Veja que o tamanho da lagarta é maior até que o do percevejo, mas ele mesmo assim é capaz de atacar a lagarta. Esses percevejos se parecem, de certo modo, com os percevejos pragas, como o marrom, por exemplo. Eles têm projeções conhecidas como guampas e também, de modo geral, o macho é um pouco menor que a fêmea – reforça o pesquisador da Embrapa Samuel Roggia.

Para diferenciar o percevejo predador do que é praga, é preciso prestar atenção no aparelho bucal do inseto, o estilete.

– A principal diferença é o estilete, que é um aparelho que ele usa para se alimentar, um canudinho. Ele é mais robusto, mais forte e um pouco mais curto do que o estilete dos percevejos pragas – explica.

A equipe de reportagem viajou à Tupanciretã, região central do Rio Grande do Sul. Conhecemos a história do produtor de sementes Roberto Mascarenhas, que enfrentou o percevejo com todos os recursos. O proprietário da Fazenda Guabiju precisava erradicar o problema, mesmo que fosse em uma área isolada da propriedade.

– Nós tivemos até nas bordaduras encostadas de mato e chircas. Chegamos a contar até 10 percevejos por pano de batida. Foi preocupante conseguirmos controlar, mas tem o problema de custo de produção, de ambiente. Não tem porque entrar com tantas aplicações quando a gente pode tentar desenvolver uma metodologia que pudesse facilitar o controle – afirma.

Foi assim que o problema acabou virando objeto de estudo, sob orientação de um professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mascarenhas passou a monitorar a área com rigor, buscando saber como agir em caso de problemas na safra seguinte.

– A gente queria realmente descobrir qual era a dinâmica daquela população de percevejo, a taxa de aumento das gerações, e como a gente ia se posicionar no início do controle. A gente acabou por descobrir que o início do controle deve sempre ser antecipado – orienta.

O trabalho realizado na propriedade, além dos resultados para o controle, acabou gerando uma tabela, que é utilizada até hoje para o acompanhamento da lavoura. O monitoramento é feito semanalmente.

– O manejo que a gente faz e o acompanhamento de áreas é por talhão, e a gente faz isso semanalmente. Desde a emergência da cultura, com o acompanhamento de estande, pragas secundárias, pragas principais e doenças – explica o engenheiro agrônomo Tiago Jezewski.

O professor Jerson Guedes, que ajudou na definição do nível de dano para o tratamento na área do produtor Roberto Mascarenhas, explica que o prejuízo do percevejo para os produtores de semente é ainda mais grave.

– Para uma população de quatro percevejos, apresenta uma redução de 280 kg para quatro percevejos por m². Esse número de 40 mil percevejos por hectare é capaz de reduzir 280 kg, segundo os resultados desse experimento de 1990. Para os produtores de semente, esse impacto sobre a qualidade, ou seja, o vigor e a germinação das sementes é muito importante. Os percevejos reduzem o peso de grão e o mesmo com experimento, que mostra que a perda de grãos por hectare é significativa – explica Guedes.

A presença de um percevejo por m² equivale a 10 mil percevejos por hectare. Já pensou tantos insetos se alimentando e reproduzindo na sua plantação? Claro que existem diferentes estudos, mas o levantamento realizado pelo docente da UFSM apontou um prejuízo de uma saca por hectare. Por isso, é preciso realizar uma conta para chegar ao nível de dano econômico. Ou seja, a partir de quantos insetos vale a pena o produtor iniciar o controle químico.

– O nível de dano econômico é um valor que relaciona o custo do controle e o dano do percevejo. É um dano relacionado a uma população do percevejo, um número obtido através de uma equação que deve guiar o momento a partir do qual o produtor deve controlar, ou seja, a partir de que população passa a perder dinheiro – reforça.

Essa conta muda de ano para ano, pois o preço dos insumos varia, assim como o valor pago pela soja e a produtividade de cada área.

Classificação dos grãos

Seguimos também para o Estado de Goiás, na cidade de Rio Verde. Fomos saber o que o percevejo causa de problemas na armazenagem e industrialização. Na unidade da Caramuru Alimentos, pudemos ver como grãos chegam na classificação. Entenda como são os grãos ideias, aqueles que remuneram melhor o produtor.

O grão de soja ideal é o grão esférico, com coloração clara na superfície. Também ele precisa ser claro por dentro, na parte que chamamos de cotilédone. O classificador separa o grão e observa se há manchas, também olha se há manchas nesse cotilédone e classifica – aponta o gerente de armazenagem e classificação José Ronaldo Quirino.

Com o passar do tempo, os responsáveis pela classificação na empresa começaram a encontrar mais problemas provocados pelo percevejo.

– Ninguém quer este tipo de defeito, mas é um cuidado que devemos ter. É uma coisa que pode parecer pouco, mas pode ser muito grande para toda a cadeia produtiva. Estamos percebendo nos últimos cinco anos que está crescendo a quantidade de grãos danificados por insetos sugadores da soja – afirma Quirino.

Os danos provocados pelo percevejo e identificados no processo de classificação começam pelo rompimento da película que protege o grão.

– Ao percevejo picar, provoca-se uma ruptura no grão, essa ruptura vai facilitar a penetração de água e micro-organismos, e isso vai causar problemas na armazenagem, esse problema pode estar vindo do campo. Se o percevejo picar no campo e houver uma condição de umidade elevada, isso facilitará a penetração de água e o desenvolvimento dos micro-organismos – alerta o especialista em armazenagem.

Os maiores danos são verificados ao abrir o grão. Algumas manchas externas podem não representar problemas, outras comprometem totalmente o grão.

– Ela pode ter colorações diferentes, também pode ser em alto relevo. A picada pode ser notada em uma depressão na película. Pode ter coloração marrom, pode ser preta, tem diversas cores para o classificador observar – comenta.

O pesadelo do produtor pode continuar depois. O grão atacado pelo percevejo vai para o armazém contendo uma toxina que pode provocar a fermentação da massa do grão.

– Outra coisa, muitos agricultores armazenam e começam a comercializar depois o produto. Aí ele tem que tomar cuidado, porque aquilo que às vezes tem um peso menor como desconto acaba passando despercebido, mas se ele tiver algum problema de armazenagem, ele vai passar a fermentar. Aí é um desconto um para um, ou seja, o peso multiplica por quatro, então tem que tomar cuidado, tanto o armazenador quanto o produtor que armazena a soja. A indústria também armazena e pode transformar em fermentado, isso vai fazer com que ela tenha maior custo no tratamento da acidez e na clareação do óleo. Assim acaba onerando todo o custo de produção no Brasil – ressalta.

Além da fermentação que a picada do percevejo provoca, também existem os grãos imaturos, a chamada soja louca, que pode ser causado pelo inseto. A planta atacada fica com a haste e vagens verdes, mesmo após suas vizinhas já estarem em ponto de colher. Esses grãos com maior teor de umidade serão problemáticos para o armazenador e a indústria. Por isso, sua presença nas cargas precisa ser vista com cuidado.

A Fazenda Guarita, localizada no município de Rondonópolis (MT), recebeu da indústria o alerta sobre a presença de grãos danificados. A partir disso, passou a dar mais atenção ao inseto.

– Na lavoura, se você não vê ao olho nu, você tem que cortar o grão para ver o alto índice de percevejo. Aí você já sabe que vai ter problema se não fizer o controle – afirma o técnico da fazenda Everton Mann Appelt.

O que vem preocupando alguns pesquisadores é o dano que o produtor não vê. Grãos chochos ou não desenvolvidos picados pelo percevejo não chegam a entrar na colheitadeira.

– O principal dano do percevejo para o produtor é que ele não deixa o grão se formar. Esse chocamento na fase inicial de chocamento de grãos R5.1, R5.2, R5.3 onde estão bem na fase inicial do grão e o percevejo se alimenta desse grãozinho em formação. Não deixa que ele se forme e, no momento da colheita, ele vai ser descartado junto com a casca da vagem. O produtor não tem noção de quanto ele perde e do que é jogado fora no momento da colheita desses grãos que não foram formados porque os percevejos não permitiram essa formação. O maior dano seria esse: o percevejo não permitir que o grão complete todo seu desenvolvimento – orienta a pesquisadora da Universidade de Rio Verde Jurema Rattes.

A docente está coordenando um trabalho em que se compara a colheita e debulha manual com a mecanizada. A diferença impressiona. A professora explica que as perdas, neste caso, podem chegar a 12%, valor que passa despercebido pelo produtor.

– Esse trabalho compõe exatamente de você tirar uma amostra de uma colheita mecanizada, e nessa amostra você se impressiona o quanto se perdeu com percevejo. Essa amostra é levada para o armazém e é classificada. E a outra amostra nós fazemos quando a debulha é manual e você abre todas as vagens e tira esses grãozinhos que ficaram chochos na colhedeira e foram descartados sem perceber. Nós percebemos que a perda é de 3% na amostra mecanizada e com a debulha manual chega a 15%, ou seja, que 12% passaram despercebidos pelo produtor. Então esse é um dos maiores problemas. Nós temos que mostrar ao produtor o que se deixa de colher em função do ataque do percevejo – completa Jurema.

Impacto nos produtores de sementes

Também em Rondonópolis, conhecemos a Associação dos Produtores de Sementes da Serra da Petrovina. Lá, os produtores querem ver o percevejo bem longe. O motivo é que o inseto causa mais prejuízos ao sementeiro do que ao produtor comum.

– O percevejo, por ser uma praga migratória, exige um controle em conjunto que é o controle regional. Todos têm que fazer esse controle juntos, porque não adianta eu fazer o controle na minha propriedade e o vizinho na fazer na área dele. Esse percevejo vai acabar migrando e vai me trazer problema. Com o custo maior de produção e, consequentemente, um dano maior, correndo o risco de perder talhões por dano do percevejo – ressalta o gerente da Fazenda Girassol, Alessandro Dalazén.

Associação dos Produtores de Semente de Mato Grosso (Aprosmat) também está preocupada com o inseto. O laboratório da Aprosmat faz, em média, 18 mil análises de sementes a cada safra. Os analistas estão observando um aumento preocupante nos danos causados pelo percevejo, especialmente nas cultivares mais tardias.

Quando uma amostra chega ao laboratório, o sementeiro já descartou 90% dos problemas. O material vem para que seja feito o laudo oficial e para que o produtor de sementes possa determinar o valor da venda.

– O que eu falo é que o mercado é soberano, nenhum produtor vai querer oferecer uma semente de qualidade inferior para depois perder o cliente. Então, na verdade, ele vem para confirmar se realmente o cultivado dele está em boas condições para ser usado no plantio comercial – explica Pierre Patriat, vice-presidente da Aprosmat.

As análises começam pela visualização da aparência externa do grão. Depois, vão para o teste com sal de tetrazólio, que analisa o possível dano do percevejo no interior da semente.

– Ele é considerado um raio-x que nós conseguimos fazer dentro da semente de soja. Quando conseguimos visualizar os danos mecânicos, danos por umidade e danos por percevejo, que são danos que causam a redução da qualidade da semente. Ele é feito em um período de 16 horas de condicionamento, após isso a gente coloca numa estufa à 40º e, com o tetrazólio, que é um líquido que a gente coloca e é incolor, ele vai realçar as enzimas e vai penetrar nos tecidos vivos da semente e vai causar coloração vermelha, onde a gente consegue visualizar os danos existentes dentro da semente, que são dados por notas. De 1 até 8 são sementes viáveis e não viáveis. No geral, o dano do percevejo pode ser muito grave, mas não tira o vigor da semente, desde que o produtor tenha controlado corretamente na lavoura – comenta a analista de sementes Valéria Martins.

Outro teste realizado é o de poder de germinação. Com as sementes já germinadas que se é possível ter uma ideia de como está o lote do ponto de vista da estrutura da planta.

– O teste de germinação vai avaliar como que estão todas as estruturas necessárias para gerar uma planta no campo. A gente faz uma avaliação, verifica se todas as sementes geraram alguma coisa que tenham estrutura e selecioná-las como normais e contabilizar, fazendo uma análise quantitativa e vamos descriminar isso, com quantidade de sementes normais e quantidade de sementes anormais – orienta Ana Aurélia Dias Oliveira, analista de sementes.

Armadilha de feromônios

Enquanto não surgem outras soluções, a Fundação MT está testando uma espécie de armadilha com feromônios para controlar a presença do percevejo marrom nas plantações. O estudo é uma parceria com a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Embrapa Cernagen) e conseguem um monitoramento mais fiel à realidade do talhão.

– Temos uma parceria com a Embrapa Cenargen, que está desenvolvendo um feromônio para o percevejo marrom. Há três anos que estamos com essas armadilhas no campo e observando como é a captura. Fizemos outros ensaios para ter uma população para correlacionar com o nível de dano. Chegou-se a 1,7 percevejos na média das armadilhas, o que valeria a dois percevejos por metro, no caso de grãos, para iniciar e realizar o controle sem danos. Nós fizemos esses trabalhos e conseguimos identificar essa população até um ano, e essa população atingiu o nível nos feromônios praticamente um mês antes do que em relação ao pano de batida. Isso é muito importante e nessa área a gente conseguiu um dano menor e produções maiores. As aplicações foram deslocadas em relação onde o produtor não tinha armadilhas e só monitorou com o pano – comenta a pesquisadora da Fundação MT Lúcia Vivan.

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Fonte: Somar Meteorologia