Agricultura ainda é a maior fonte de renda dos quilombolas

Comunidades de sucessores dos negros escravizados no Brasil vive, praticamente, com renda provinda da agricultura familiarNesta quarta, dia 20, comemora-se o Dia da Consciência Negra no Brasil. A data rememora a morte de Zumbi dos Palmares, em 1695 - um dos principais líderes do Quilombo dos Palmares, considerado o maior do período colonial. Hoje, o país conta  com mais de 2,4 mil comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares. Os sucessores dos negros escravizados, que começaram a formar essas comunidades no século 16, vivem, praticamente, da agricultura familiar.

– A agricultura é a atividade mais forte. O extrativismo também é uma atividade muito forte na área de quilombo. E hoje o governo federal tem apoiado o empreendedorismo, no artesanato, na produção cultural, na geração de renda, na capacitação técnica e na extensão rural – explica o diretor do Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Cultural Palmares, Alexandro Reis.

Para a lavradora Aurea Paulino, da Comunidade Kalunga, em Goiás, a roça é garantia de tranquilidade.

– Você quer uma banana você tem, quer uma mandioca, você tem. O arroz e o feijão, que é o principal, a gente planta. Então eu acho bom, porque não é todo lugar que a pessoa tem esse privilégio. Aqui a gente sabe viver sem dinheiro. Aqui não tem violência. Pode sair e deixar a porta aberta. É um lugar tranquilo. Acho bom criar meus filhos do jeito que eu fui criada, estudando e trabalhando na roça – destacou.

No quilombo onde Áurea vive há um forte sentimento de comunidade. Os kalungas se ajudam muito e não deixam um vizinho passar necessidade. Se falta alguma coisa para algum integrante, a comunidade se organiza para ajudar.

Esse sentimento de unidade é muito presente nos remanescentes quilombolas em geral, como explica Ananias Viana, líder da comunidade baiana Kaonge.

– Ninguém faz nada no individualismo porque é mais dificil de conquistar. É tudo no coletivo. Até a produção é no nível coletivo. Quem quiser plantar, colher em suas roças no fundo da casa, tudo bem – destaca.

– Mas, para projeto de sustentabilidade, aqui tem que ser coletivo porque é a maneira que os nossos ancestrais fizeram e é a maneira que a gente considera melhor para a produção – acrescenta.

Os quilombolas kaonges uniram esforços com outros remanescentes que vivem na região do Vale do Iguape (BA) e buscaram no próprio dia a dia a solução para que ninguém precisasse deixar as comunidades em busca de vida melhor. Mais de 300 pessoas de 13 remanescentes da região se organizam em núcleos de produção e fazem a engrenagem funcionar.

Eles plantam frutas, legumes e verduras, colhem mel, cultivam ostras, produzem artesanato e mostram suas atividades diárias para turistas e visitantes. Os jovens participam de todas as atividades e isso integra as diferentes gerações.

Há poucos anos, a cidade de Santiago do Iguape, no interior da Bahia, começou a se descobrir quilombola. O nome quilombola pode até ser novo para os mais de 2.500 habitantes do local, mas os costumes são antigos.

– A gente ainda quer continuar no final de tarde tomando um banho de mar, caindo do cais [pulando no rio], a gente ainda quer acompanhar as marisqueiras, ainda quer ver com os nossos idosos, mestres do saber cantando, conversando – conta Pan Batista, uma das líderes da comunidade nesse processo de reconhecimento.

Para a Comunidade do Muquém, em Alagoas, que fica bem próxima ao famoso Quilombo dos Palmares, foram as mãos no barro que deram um horizonte produtivo para quem vivia ali. Dona Irinéia é uma das famosas artesãs da comunidade e tira da cerâmica o sustento da família. Ela começou a fazer cabeças inspiradas em negros escravizados. As peças, além de ser comercializadas no Brasil, já chegaram ao exterior.