
O mistério acabou e o governo anunciou, nesta terça-feira (30), R$ 525,1 bilhões em recursos para o Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial. Para a agricultura familiar, serão destinados R$ 97,4 bilhões entre Pronaf e outras políticas de financiamento. A dúvida que fica agora é sobre o acesso dos produtores rurais a esse dinheiro.
Para o diretor de Novas Estruturas Financeiras da TerraMagna, David Télio, “há uma grande probabilidade” do valor anunciado não ser utilizado efetivamente. Nesse cenário, ele cita a diferença entre os valores disponibilizados e o desembolso do que foi, de fato, contratado pelo produtor na última safra.
“Se fizermos o cálculo, no Plano Safra anterior o desembolso efetivo ficou 76% aquém do valor anunciado”, afirma. Isso significa que menos produtores conseguiram acessar os recursos.
Télio também alerta para a falta de recursos equalizados – aqueles captados por bancos a taxas de mercado, mas emprestados com juros bem mais baixos e subsidiados. “No ano passado, o governo anunciou R$ 13,5 bilhões para a equalização. Mas chegou um momento em que o Conselho Monetário Nacional (CMN) determinou a suspensão dos desembolsos porque não havia mais recursos”, diz o especialista.
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A explicação para esse esgotamento rápido está na própria engrenagem do plano. O valor citado por Télio se refere ao orçamento que o Tesouro Nacional separa para pagar a diferença de juros aos bancos — o que, na prática, viabiliza um volume muito maior de crédito na ponta.
No anúncio desta terça-feira, por exemplo, o governo informou que o Plano Safra 2026/27 terá R$ 97 bilhões em linhas com juros equalizados. Apesar de expressivo, o montante representa um recuo de 14,7% em comparação com o ciclo anterior, quando foram disponibilizados R$ 113,8 bilhões nessa modalidade.
Distribuição dos recursos desigual
Para Télio, outro ponto que destoou do cenário vivido pelo campo foi a redistribuição dos recursos entre as modalidades de crédito. Enquanto o governo reduziu o volume destinado ao custeio e à comercialização, ampliou os recursos para investimentos em máquinas, equipamentos e armazenagem.
Na avaliação do especialista, a mudança vai na contramão do comportamento observado pelo mercado ao longo do último ano. Segundo ele, produtores têm adiado investimentos diante da queda da rentabilidade e das dificuldades financeiras acumuladas desde 2023.
“Todas as feiras registraram redução na aquisição de máquinas, na modernização de equipamentos, na renovação de frotas e, principalmente, em armazenagem. Se o produtor não está investindo, o que leva o governo a aumentar o valor destinado aos investimentos de longo prazo?”, questiona.
Renegociação de dívidas segue fora do radar
Outro ponto criticado pelo diretor da TerraMagna é a ausência de medidas voltadas à renegociação das dívidas rurais. Durante o anúncio do novo Plano Safra, o ministro da Fazenda Dario Durigan afirmou que o governo deve apresentar uma proposta ao Congresso Nacional nos próximos dias, mas sem detalhes.
“Os produtores perdem tempo tentando refinanciar e renegociar dívidas e, muitas vezes, acabam recorrendo à recuperação judicial. Isso não é bom para o produtor, para os bancos nem para o mercado financeiro”, afirma. Na estimativa feita por Télio, esse estoque de dívidas já alcança R$ 180 bilhões.
O especialista também chamou atenção para a falta de sinalização sobre o orçamento destinado ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Embora o governo tenha condicionado a renegociação de dívidas da agricultura empresarial à contratação de seguro rural, ele avalia que não houve indicação de reforço nos recursos para subsidiar os prêmios pagos pelos produtores.
Crédito chega, mas muito mais caro
Se, por um lado, o desembolso do Plano Safra anterior ficou aquém do valor anunciado, por outro o mercado de crédito privado e de capitais segue em expansão. De acordo com Télio, o volume dessas operações já ultrapassa R$ 1 trilhão entre o ano passado e o início de 2026.
Na avaliação do especialista, esse movimento é reflexo da dificuldade dos produtores em acessar as linhas oficiais de financiamento. Como alternativa, eles recorrem a outras modalidades de crédito, mas com custos muito mais elevados.
“Isso não acontece por acaso. É porque, efetivamente, o Plano Safra não está chegando ao produtor. Existe o anúncio, mas o recurso não chega”, afirma.
Entre os fatores que explicam esse cenário, Télio cita a burocracia e a falta de orientação para acessar os financiamentos, sobretudo entre os agricultores familiares. Segundo ele, muitos pequenos produtores desconhecem como funciona o Plano Safra, quais documentos são exigidos e a quem recorrer para contratar as linhas de crédito.
“A impressão que fica é que o governo anuncia excelentes taxas e volumes de recursos, mas você não vê esses agricultores tendo condições reais de acessar esse crédito”, reforça.
Para Télio, uma atuação mais próxima de instituições como sindicatos rurais, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil poderia facilitar o acesso dos pequenos produtores aos financiamentos, com orientação sobre documentação, digitalização de processos e contratação das linhas.
“Quando você anuncia e não oferece nada, significa apenas: ‘estou mostrando que existe’, mas sem criar condições para que essas pessoas tenham acesso”, conclui.