
O modelo de política agrícola brasileiro chegou ao limite e já não consegue responder aos desafios enfrentados pelo produtor rural.
Essa é a avaliação do coordenador do Observatório de Crédito e Seguro Rural da FGV Agro, Pedro Loyola. Segundo ele, o aumento da inadimplência, das recuperações judiciais, do crédito problemático e da dificuldade de acesso ao financiamento mostram que o sistema atual perdeu capacidade de atender o produtor.
A análise ocorre após o governo anunciar, nesta terça-feira (30), R$ 610 bilhões para o Plano Safra 2026/27, divididos entre agricultura empresarial e familiar. “É como se o paciente estivesse na UTI”, resume o especialista.
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Para Loyola, os sucessivos anúncios de planos recordes têm colocado o foco no volume de recursos disponibilizados, mas deixam de lado a qualidade do crédito que efetivamente chega ao produtor. “O plano agrícola está focado em volume de crédito e não em dar uma qualidade de crédito para que o produtor tenha chance de pagar. Ele não protege o produtor”, afirma.
Na avaliação do especialista, esse cenário ajuda a explicar por que parte dos produtores tem reduzido a procura pelo crédito oficial. O problema, segundo ele, não está apenas nas taxas de juros, mas também nas exigências cada vez maiores dos agentes financeiros diante do aumento do risco da atividade.
“Quando o banco olha para esse cenário, ele faz o cálculo do risco da atividade, da região e do produtor. A partir daí, passa a exigir mais garantias”, diz.
Segundo Loyola, isso tem levado muitos produtores a recorrerem às chamadas taxas livres, que atualmente podem variar entre 16,5% e 27% ao ano. “Fazer uma safra inteira com taxa livre não fecha a conta”, alerta.
Seguro rural expõe fragilidades
Na avaliação de Loyola, a situação do seguro rural reforça o diagnóstico de que a política agrícola precisa ser revista.
Embora o governo tenha anunciado que a renegociação e a prorrogação das operações de custeio estarão vinculadas à contratação do seguro rural ou do Proagro, ele afirma que ainda faltam informações sobre como essa medida será implementada e, principalmente, quais recursos serão destinados ao programa.
“Pela primeira vez se fala em colocar o seguro rural na sistemática da renegociação. É uma medida positiva, mas ainda é pouco”, avalia.
Além disso, ele ressalta que o Plano Safra não apresentou previsão de orçamento para a subvenção ao prêmio do seguro rural, enquanto ainda existem R$ 141 milhões referentes ao ano passado que não foram pagos às seguradoras.
Loyola aponta ainda que parte relevante dos R$ 473 milhões disponíveis neste ano já foi comprometida, o que reduz a previsibilidade para produtores e seguradoras. “O mercado precisa de previsibilidade para fazer seu planejamento. Isso não veio no Plano Safra”, observa.
Para o especialista, o governo mantém o discurso de que o seguro rural é prioridade, mas isso não se traduz em ações concretas.
O que precisa mudar
Para Loyola, a solução passa por uma mudança estrutural da política agrícola, com maior foco na gestão de riscos.
Entre as medidas defendidas estão o fortalecimento do seguro rural, a ampliação dos recursos para subvenção, a integração entre crédito e seguro e a criação de incentivos para produtores que adotem mecanismos de mitigação de riscos.
Na avaliação dele, reduzir a taxa de juros para quem contrata seguro rural seria uma forma de estimular a adesão ao instrumento e diminuir a exposição tanto dos produtores quanto das instituições financeiras. “Falta criatividade técnica e vontade política para resolver esse problema”, afirma.
Sem uma mudança de direção, afirma Loyola, o país continuará recorrendo a renegociações sucessivas sempre que eventos climáticos ou crises de mercado comprometerem a renda do produtor.
“Chegamos ao limite. O problema não é o modelo do seguro rural. O modelo que está esgotado é o da política agrícola, que olha apenas para o volume de crédito e não para a qualidade desse crédito. Crédito bom é aquele que o produtor tem condições de pagar”, finaliza.