– Ali é um banco de dados único, precioso, não é possível sair e começar tudo do zero. Já temos uma área de pesquisa consolidada, um sistema estável. Perder essa área é perder tudo que já foi investido e todos os trabalhos que vão impactar no futuro do país – alerta a pesquisadora Ieda Mendes.
Desde 2009, a área é considerada urbana pelo plano diretor de Brasília (DF). O governo pretende construir no local, quatro mil unidades habitacionais para o programa Minha Casa, Minha Vida, beneficiando famílias com renda de até R$ 1600. O projeto, que ainda não tem estudo de impacto ambiental, já foi aprovado por quinze órgãos e está pronto para ser executado.
O governo do Distrito Federal afirma que construir moradias na área é cumprir sua função social. O subsecretário de habitação, Paulo Valério, que representou o governo durante a audiência pública, pondera que os prejuízos com as pesquisas da Embrapa Cerrados não devem ser tão grandes quanto a instituição afirma.
– Me parece que se veste um pouco de dramaticidade dizer que se 20% deixar de ser usado, acaba tudo. Nem tanto ao sol, nem tanto ao mar. Ninguém duvida do papel da Embrapa, pelo contrário, reconhecemos as conquistas e defendemos que aquilo que há de conquista, permaneça, isso é direito intelectual e já foi inclusive socializado com as pessoas que tiveram acesso. Agora, essa terra tem uma função social que precisa ser cumprida – diz Valério.
– Nós sempre colaboramos com o governo do distrito federal, fomos parceiros. O DF é a unidade que mais concentra pesquisadores agropecuários do mundo, não é do país, é do mundo. Então acredito que é possível conciliar e o governo vai mudar essa posição – torce Ieda.
A Terracap, empresa que gerencia as terras do Distrito Federal, garante que assim que houver um acordo, poderá pesquisar outra área adequada para a construção dos apartamentos.
– É mais fácil encontrar alternativa para habitação. Como foi colocado, a pesquisa não se transfere imediatamente, pode ser que o calor dos debates não esteja permitindo ver uma forma de não perder a pesquisa totalmente, mas com certeza é mais fácil encontrar outra área pra fazer o projeto habitacional – afirma Luciano Queiroga, diretor habitação e regularização Terracap.
O Ministério Público não descarta uma ação judicial para solucionar o impasse.
– Não é uma questão de realocar, há uma razão para a Embrapa estar ali, não só pela diversidade de solo e produção, que é representativo de todo o bioma Cerrado. É esse patrimônio que a gente está abrindo mão – coloca a promotora de justiça, Cristina Rasia.