Código Florestal: falta de clareza da lei e burocracia prejudicam divisão de propriedade herdada

Produtor de Leme, em São Paulo, enfrenta falta de preparo dos funcionários de órgãos públicos para concluir processoUm produtor de Leme, no interior de São Paulo está enfrentando problemas para dividir entre os irmãos uma propriedade herdada. O processo esbarra na burocracia e na falta de clareza do novo Código Florestal.

Os 40 hectares deixados pelos pais para Ismael Odmar Habermann e seus três irmãos são usados no plantio de cana-de-açúcar, laranja e hortaliças. Há dois anos, foi dada a entrada da documentação no cartório de matrículas para a divisão das terras. Até agora, a família já desembolsou R$ 25 mil e ainda não conseguiu o que queria. De acordo com o produtor, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental de São Paulo (Cetesp) diz que eles precisam primeiro fazer a averbação da área de Reserva Legal.

— Temos reserva sobrando. Se você for ver pelo tamanho da propriedade, nós temos até sobrando, mas o problema é fazer a reserva. Tem hora que dá vontade de largar tudo — afirma Habermann.

A falta de informação dos próprios funcionários dos órgãos públicos sobre o Código Florestal é um dos principais embates, de acordo com os especialistas. Muitos produtores rurais poderão ficar de mãos atadas até que o Cadastro Ambiental Rural (CAR) esteja em prática no país.

— Primeiro ponto é que não existe obrigatoriedade de averbar reserva legal. Se ele tem a Reserva Legal, ele vai provar isso dentro do Cadastro Ambiental Rural e se ele vai subdividir a propriedade, por uma questão de herança, essa área vai continuar sendo de Reserva Legal e, possivelmente, os irmão vão compensar na propriedade ele — diz o advogado Rodrigo Lima.

De acordo com o advogado, Habermann poderia entrar com um mandado de segurança, mas o processo judicial traria mais custos ao produtor.

— Eu esperaria até o começo do ano, porque o Cadastro Ambiental deve ir para o ar muito em breve. Agora, se o cadastro começar a demorar eu sugiro que ele procure um advogado, porque aí o órgão ambiental estará agindo, no meu entender, de forma incorreta — recomenda Lima.

Para o advogado, o caso do produtor é preocupante.

— Esse caso é interessante para ilustrar o quanto a questão da regularização ambiental gera uma agenda densa para órgão estaduais e municipais em relação a absorver todas as informações que vão ser levadas no CAR e monitorar o cumprimento da regularização. Os Estados precisarão ter muita gente capacitada e treinada pra implementar e para evitar essas desinformações — comenta.