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Potencial e as oportunidades do agronegócio brasileiro no mundo foram enfatizados no Agrocenário 2022

Evento contou com especialistas de diversos segmentos agropecuários para analisar a competitividade brasileira nos próximos anos

Entre diversos outros destaques do “Agrocenário 2022 – Competitividade do Agronegócio Brasileiro”, ocorrido nesta quarta-feira (15), o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Sérgio Souza, salientou que o fortalecimento da agropecuária brasileira passa, diretamente, pela equalização dos custos de produção.

Ele reconheceu que os preços dos insumos têm crescido de forma totalmente desordenada. “Os preços da soja e do milho também subiram, mas os dos insumos ultrapassam qualquer limite. Uma tonelada de potássio, por exemplo, saiu de aproximadamente 300 dólares para quase mil. Já o galão de glifosato teve incremento de quase 100%, entre vários outros exemplos”, destacou.

De acordo com Souza, o Parlamento brasileiro está atento às dores do produtor e por meio da FPA busca trazer segurança jurídica ao setor, como a regularização fundiária. “O marco das ferrovias, a BR do Mar e a exploração de jazidas de potássio do país tendem a reduzir os custos para o produtor”, afirmou.

Neste cenário, o diretor de Supply Chain da Corteva Agriscience, Gustavo Haddad, destacou que “em momentos excepcionais, o excepcional se destaca. E é isso o que o agro brasileiro está fazendo mais uma vez”. Segundo ele, apesar de todos os desafios, também é preciso olhar para os bons indicadores, como a projeção da safra de soja romper a barreira doas 140 milhões de toneladas.

Custos 22/23

O Agrocenário 2022 também destacou os dados parciais do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP) para a safra 22/23. Os números dão conta que se o produtor optou por comprar os insumos para a temporada seguinte em novembro deste ano, terá um aumento de 70% em comparação ao mesmo período do ano passado. De acordo com o pesquisador do Cepea, Mauro Osaki, essa alta se deve aos custos com fertilizantes e herbicidas, sendo que, neste processo, o Brasil tende a ser o mais afetado.

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Foto: Daniel Popov/Canal Rural

“Em torno de 25% a 35% do custo da soja, por exemplo, é derivado deste insumo, enquanto que em nossos principais concorrentes, a taxa é de 20% nos Estados Unidos e não ultrapassa 5% na Argentina”, explica. “Na média das últimas cinco safras, o custo de produção da soja no Brasil está em torno de 580 dólares por hectare ou 182 dólares por tonelada, que é o dobro da Argentina e 30% a mais do que nos Estados Unidos”, completa.

Nesta toada, o analista de Fertilizantes da Agrinvest Commodities, Jeferson Souza, lembrou que o frete marítimo teve aumentos na faixa de 300% este ano, sendo até maior no caso de cargas secas. “Devido à nossa dependência do mercado internacional,  a situação brasileira ficou bastante complicada. Os fertilizantes tiveram aumentos estrondosos no frete Brasil, como o cloreto de potássio, por exemplo, que passou de 260 dólares para 800 dólares na semana passada”

Segundo ele, tal realidade de alta dos custos tem como um dos principais ingredientes a redução de produção de fertilizantes feita pela China desde meados de 2015 por conta de mudanças estruturais no sistema e regulamentações ambientais, entre outros fatores. “O cenário para a safra 22/23, infelizmente, não é bom. Tivemos recentemente, no início de dezembro, mais uma empresa de cloreto de potássio entrando na lista negra dos Estados Unidos, o que dificulta o comércio com essas empresas, principalmente pela dependência do dólar”, destacou.

Relevância do agro brasileiro

O professor coordenador da Esalq/USP, José Vicente Caixeta, também participou do Agrocenário 2022 e, em sua fala, salientou a relevância do agro para o PIB do país. “É um setor que representa cerca de um trilhão de reais ao ano. No entanto, a nossa conta frete para movimentar toda essa quantidade de carga tem girado em torno de 100 bilhões de reais. Esse valor acaba impactando muito, em termos relativos, produtos de baixo valor agregado, como acaba sendo o caso de grande parte das commodities agrícolas”, explicou. Por isso que, conforme ele, uma agenda de estado, e não de governo, voltada à logística da produção brasileira deve ser uma das prioridades do Brasil.

cotação preço soja

Já o sócio da VBSO Advogados, Renato Buranello, destacou que no contexto de crédito e financiamento, o país está em uma transição de modelo. “Se formos considerar a questão de competitividade e redução de custos, temos um ótimo caminho. Isso porque se pegarmos o histórico, desde 1965, com a criação do Sistema Nacional de Crédito Rural até 2021, tivemos um conjunto regulatório que indica a direção para o crédito privado e o mercado de capitais”, considerou. Neste cenário, Buranello salienta que a inclusão de fintechs e agro fintechs é fundamental, já que descentraliza esse papel dos grandes bancos.

Geopolítica e meio ambiente

O professor de Agronegócio Global do Insper, Marcos Jank, afirmou durante o evento que, apesar do ano de pandemia, o Brasil deve fechar 2021 com os melhores resultados do agronegócio de sua história. “Devemos fechar este ano com exportações de 118 bilhões de dólares, quase 20% a mais do que no ano passado. Isso se deve, em grande parte, ao ótimo desempenho da soja, em que devemos fazer 47 bilhões de dólares em exportação. Não há nenhum setor da economia que esteja tão bem quanto o agro, principalmente no que se refere ao mercado internacional”. De acordo com ele, outro indicativo positivo para o setor é, aos poucos, sair da dependência histórica das ferrovias para seguir rumo às ferrovias e hidrovias brasileiras.

Entretanto, Jank lembrou que o alto volume de carga exportada pelo setor tem feito os preços internos aumentarem significativamente e, com isso, afetado, principalmente, as classes mais pobres da sociedade. “Para reverter este cenário, não devemos reduzir as exportações, como alguns dizem, mas aumentar a produção para abastecer o mercado interno e é isso o que o produtor tem feito”.

Oportunidades no mercado chinês

Integrante do segundo painel do evento, a sócia da Vallya Participações, Larissa Wachholz, enfatizou que o comércio agrícola entre Brasil e China tem aumentado, em média, 20% ao ano, saindo de uma base de um bilhão de dólares em 2000 para 36 bilhões de dólares em 2020.

carne
Foto: Wenderson Araujo/Trilux/CNA

Ela destacou o papel e o crescimento da proteína animal na dieta chinesa. “Para a classe média chinesa, a carne é sinônimo de uma dieta nutricionalmente diversa e saudável. O Brasil, como um grande exportador da soja em grão, que vai abastecer esses animais, ou mesmo exportar a proteína animal já finalizada, em forma de carne, torna o país um player importantíssimo nessa capacidade chinesa de diversificar sua dieta, o que é uma ambição da classe média ascendente daquele país”, afirmou.

Segundo Larissa, entre 1998 e 2018, o consumo de carne na China cresceu 72%, o que significa que o país asiático foi responsável por 1/3 de todo o crescimento global de consumo de carne nesse período. “Esse aumento de consumo é incentivado pelo governo chinês, que tem publicado guias alimentares aconselhando uma maior diversificação de alimentos à população, com carne, ovos, leite e demais proteínas”, diz.

Realidade norte-americana

Por fim, o diretor da Pátria Agronegócios, Matheus Pereira, destacou as dificuldades dos Estados Unidos como principal concorrente brasileiro na soja. “A realidade do produtor norte-americano é extremamente problemática e teve um fator de grande dificuldade em 2018, com o estopim da guerra comercial entre China e Estados Unidos, quando o setor que foi mais afetado, talvez, tenha sido o agrícola […]. Vale lembrar que em 2018 e 2019, houve uma redução de 15% a 20% nas exportações de grão de soja norte-americana para a China”, contou.

Neste sentido, de acordo com ele, o Brasil ganha em competitividade dos Estados Unidos por ter uma diplomacia mais afinada com a China. Segundo Pereira, a alta dos custos de produção para a próxima safra podem ser ainda maiores para os norte-americanos do que para os produtores brasileiros.

“Convertendo os custos com base na taxa cambial do dólar em R$ 5,60, os custos totais de produção na região Centro-Oeste dos Estados Unidos, que concentram quase 90% da produção de soja do país, estão estimados em oito mil reais por hectare para 2022. Esse número é ainda mais surpreendente quando se trata do milho, que chega a 11 mil reais por hectare“, conclui.

O Agrocenário 2022 foi um evento realizado pela Aprosoja Brasil e Corteva Agriscience.

Assista o evento na íntegra: