Pesquisa comprova uso da batata-doce na geração de álcool

Em um ano, a batata-doce tem capacidade de processar 27 mil litros; estudo inédito da Fepagro será lançado no início de 2016

Fonte: Divulgação/Camila Pires

Alimento tradicional da culinária do Rio Grande do Sul, seja cozida, frita ou assada, a batata-doce pode alcançar novos mercados com uma pesquisa da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro). Até então restrito à mesa, o produto, com grande volume de biomassa, passa a também ser transformado em álcool

– É considerado de superior qualidade para componentes farmacológicos, bebidas especiais e combustão – explica o pesquisador Zeferino Genésio Chielle, que está à frente do estudo pela Fepagro Vale do Taquari – Centro de Pesquisa Emílio Schenk.

O processo de avaliação do potencial da batata-doce levou cerca de dez anos e contou com a parceria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que fez as análises em  laboratório. A descoberta, por enquanto, permanece sob a tutela da Fepagro, mas tem previsão de lançamento no início do ano que vem, na Expoagro Afubra .

A partir daí, conforme Chielle, o projeto poderá se transformar em realidade se houver interesse político e da iniciativa privada, mas já é uma ideia “semeada” entre os agricultores. 

– A batata-doce pode ser aproveitada integralmente, tanto a parte aérea como os tubérculos. Muito resíduo é desperdiçado – esclarece o pesquisador. Além disso, o álcool processado a partir da batata-doce é uma bioenergia, por ser totalmente renovável.

No Rio Grande do Sul, a matéria-prima não é o problema. A cidade de Mariana Pimentel, na região metropolitana de Porto Alegre, se destaca por ser a maior produtora de batata-doce no Brasil são cerca de mil hectares. 

– A propriedade agropecuária é uma indústria muito complexa. A evolução e o desenvolvimento dependem da sabedoria do seu dono ou usuário – frisa Chielle.

Outra vantagem do processamento da batata-doce é a quantidade de álcool produzida e a utilização da terra para o cultivo de outros alimentos. De acordo com o pesquisador, uma tonelada de tubérculos pode gerar de 160 a 180 litros de etanol. O principal: tudo isso em quatro meses, que é o tempo do cultivo da batata-doce, do plantio à colheita. 

– Isso dá três vezes mais do que a cana-de- açúcar por hectare – observa. 

Em um ano, a batata-doce tem capacidade de processar 27 mil litros, enquanto a cana-de-açúcar tem oito mil.

Farinha e farelo de mandioca e batata-doce

Além do álcool, o pesquisador descobriu, por meio do seu trabalho, que a raiz e a parte aérea da mandioca e da batata-doce podem se transformar em ingredientes como farinha para pão, farelo para ração animal, entre outros. 

– O objetivo é o aproveitamento integral das culturas para evitar o desperdício, tendo em vista a alta capacidade nutricional de toda a planta – destaca.

Outros projetos

A Universidade Federal do Tocantins (UFT), após 12 anos de pesquisa e de vários testes, construiu uma usina de álcool feita a partir do processamento da batata-doce. A inauguração foi em março deste ano, em Palmas, e é resultado de um convênio da universidade com a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

O projeto para a implantação da usina nasceu em 1996, através de uma pesquisa elaborada pelo professor Márcio Antônio da Silveira, com um investimento inicial de R$ 20 mil, feito pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

Hoje, o projeto conta com um aporte financeiro de R$ 1,2 milhão e envolve em média 44 profissionais, sendo 25 doutores, nove alunos de mestrado e dez acadêmicos de graduação. A capacidade total da usina é de três mil litros de etanol por dia.