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Nova plataforma reúne tecnologias e serviços para criadores de abelhas

Objetivo da Infobee é ajudar apicultores e meliponicultores na gestão da atividade e superação de gargalos tecnológicos

Fazenda de abelhas meliponas
Fazenda de abelhas meliponas

A Embrapa Amazônia Oriental (PA) e a empresa Equilibrium Web lançaram a plataforma Infobee, que visa auxiliar criadores de abelhas em todo o Brasil na gestão de suas atividades e na superação de desafios tecnológicos.

A plataforma disponibiliza informações técnicas, científicas, econômicas e de mercado relacionadas à apicultura e à meliponicultura, incluindo publicações, cursos, vídeos, animações e aplicativos web.

Dentre as características da plataforma, destacam-se o Calendário Apícola Digital, que fornece informações sobre o período de floração de plantas frequentemente visitadas por abelhas na região amazônica; o meliponário virtual, que oferece uma representação tridimensional das estruturas de ninhos, caixas de criação e morfologia das abelhas; e o “zapbee”, um serviço de inteligência artificial que responde às dúvidas dos criadores a qualquer momento e em qualquer lugar.

A plataforma também inclui painéis interativos que apresentam dados sobre a produção e exportação de mel e seus derivados no Brasil, com informações atualizadas anualmente com base no monitoramento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O mercado de mel e produtos derivados está em crescimento no Brasil, com um aumento significativo na produção e exportação nos últimos anos.

A plataforma Infobee é flexível e está aberta a receber novas funcionalidades e informações, de acordo com as necessidades da comunidade de criadores de abelhas.

O desenvolvimento da plataforma é baseado na escuta constante dos usuários, a fim de atender às demandas específicas desse setor.

Inteligência artificial na palma da mão

Uma das inovações da plataforma Infobee é o serviço chamado “zapbee”, que responde às
dúvidas de criadores de abelhas e interessados no tema a qualquer hora e em qualquer lugar.

O serviço está disponível na modalidade web e usa a tecnologia de Inteligência Artificial (IA) para
interagir com os usuários. “Não estamos criando uma tecnologia nova, estamos usando uma nova tecnologia para criar um serviço e a inteligência escolhida foi o ChatGPT”, afirma Sebastião Júnior.
Para a apicultora Francidalva Monteiro, do município de Primavera, a possibilidade de ter um
canal com informações confiáveis para o esclarecimento de dúvidas no celular é fantástico.

“Na hora que eu tiver uma dúvida, eu acesso o aplicativo e resolvo. Vou dar um exemplo: eu perdi um
enxame, se tivesse a informação naquela hora do manejo, eu não perderia”, destaca. O processo de ensinar a IA sobre a criação de abelhas envolveu a conversão em dados de resultados da pesquisa agropecuária sobre o tema já publicados em texto, áudio e vídeo. A ferramenta transforma esses dados inseridos em conhecimento para que possa responder às perguntas dos usuários.

“A primeira etapa do ‘zapbee’ já foi feita e está disponível na versão web. A segunda etapa será levar o serviço ao aplicativo de mensagem nos dispositivos móveis”, completa o CEO da Equilibrium Web.

O Calendário Apícola Digital é um dos serviços desenvolvidos a partir da demanda dos criadores
de abelhas no Pará.

O serviço traz a identificação correta das plantas mais relevantes para as abelhas, sejam elas do gênero Apis ou Melipona, a região de ocorrência e a época de floração, inicialmente para a região Nordeste Paraense.

“O calendário é uma demanda antiga dos criadores. Com esse produto, eles conseguem visualizar claramente o período de floração de cada planta, a importância dessas plantas para a apicultura e a meliponicultura e conseguem planejar o manejo das colônias para a produção de mel”, afirma Kamila Leão, agrônoma e gerente de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG Mel) – do Serviço de Aprendizagem Rural (Senar).

O calendário foi construído em oficinas realizadas pela Embrapa e pelo Senar em 11 municípios paraenses, nas regiões do Baixo Amazonas, Nordeste e Sudeste Paraense, pesquisadores, técnicos e criadores de abelhas trocaram informações e conhecimentos sobre a flora local e a importância dela na alimentação das abelhas.

O primeiro passo na construção desse produto, como explica a agrônoma, foi o levantamento, na literatura, das plantas mais importantes para as abelhas no estado do Pará, que levou à identificação de cerca de 400 plantas.

“O passo seguinte foi ir a campo e conhecer a experiência dos criadores. Os próprios produtores indicaram as plantas mais importantes em cada município para a sua produção de mel”, conta a especialista.

As plantas citadas pelas comunidades foram identificadas no herbário da Embrapa Amazônia Oriental, validadas junto ao levantamento científico e incluídas no calendário. “Isso gerou um produto no qual é possível acessar o nome popular, de acordo com a localidade, o nome científico e o período de floração de cada planta na região. Inicialmente, foram construídos calendários para cinco associações de produtores no nordeste do Pará. Mas a nossa intenção é gerar um calendário mais robusto para todo o estado”, finaliza Leão.

Diversidade de plantas

Joelma Nunes, uma apicultora e meliponicultora de Primavera, no nordeste do Pará, destaca a riqueza de recursos apícolas na região que frequentemente passa despercebida pelos produtores, enfatizando a necessidade de explorar melhor o pasto apícola. O pasto apícola se refere ao conjunto de plantas que são valiosas para as abelhas na coleta de recursos, principalmente pólen e néctar.

Joelma enfatiza: “Sabemos que possuímos um pasto apícola extremamente rico, porém carecemos do conhecimento necessário para aproveitá-lo plenamente. Através da criação de um calendário que identifica os períodos de floração das plantas, conseguimos organizar nossas atividades, como a captura de enxames, e determinar os melhores locais para posicionar nossos apiários”.

Outra meliponicultora da região, Andréa Sena, da zona rural de São João de Pirabas, no Nordeste Paraense, compartilha sua experiência: “Nem mesmo nós tínhamos ciência da diversidade de plantas apícolas que conhecíamos e do potencial que elas têm em nossa região. Esse é um vasto conhecimento enraizado na nossa cultura popular.”

Andréa, que se dedica à criação de abelhas-sem-ferrão e à produção de bebidas e licores, destaca que somente ao trabalhar em parceria com técnicos e outros produtores é que ela percebeu a extensão do seu conhecimento. Ela ressalta a importância de ter um calendário que auxilia no planejamento diário, permitindo conhecer os períodos de floração das plantas e determinar quando é necessário alimentar as abelhas.

Ferramenta em 3D reproduz meliponário físico

O Meliponário Virtual é uma ferramenta que oferece suporte para a criação de abelhas sociais nativas, as abelhas-sem-ferrão. Ele disponibiliza informações em formato de texto, áudio e imagens tridimensionais, abrangendo todos os componentes que se encontram em um meliponário físico, como as caixas de criação, a estrutura do ninho e a morfologia das abelhas. Além disso, a ferramenta destaca a relevância e o papel desempenhado pela abelha canudo (Scaptotrigona postica) na polinização das palmeiras açaizeiro.

Inclusão social e conservação ambiental

A meliponicultura é uma atividade amplamente praticada em várias regiões do Brasil. O país abriga um impressionante total de 244 espécies de abelhas sociais nativas, que são reconhecidas pela comunidade científica. Desse número, 215 dessas espécies são encontradas na Amazônia Legal.

A criação dessas abelhas, como afirmado pelo pesquisador Daniel Santiago, desempenha um papel essencial como complemento de renda, muitas vezes integrada a outras atividades agrícolas, especialmente entre as famílias que se dedicam à agricultura. Essa é uma atividade inclusiva que não apenas gera renda, mas também desempenha um papel significativo na conservação ambiental.

Santiago também observa que, em muitos casos, a criação de abelhas africanizadas exóticas (Apis melífera L.) tem se destacado como uma fonte de renda mais rápida, especialmente em termos de produção de mel. Os produtores que se dedicam a essa atividade frequentemente acabam adquirindo um conhecimento mais profundo sobre as abelhas e, muitas vezes, se tornam meliponicultores. No entanto, a transição no sentido oposto também é possível.

Um exemplo inspirador disso é o caso de Joaquim de Aviz Silva e sua esposa Luciléa Dias Silva, que decidiram mudar para o interior do Pará, em Quatipuru, na região Nordeste do estado, após se aposentarem. Desde 2007, eles iniciaram a criação de abelhas, começando com a apicultura e, mais recentemente, passando a manejar abelhas sem ferrão. O que começou como um passatempo se transformou em uma fonte de renda, e à medida que eles adquiriram mais conhecimento, cresceu também sua paixão pelas abelhas.

O casal agora se dedica principalmente à criação de abelhas-sem-ferrão, uma atividade que eles descrevem como terapêutica e acessível a qualquer pessoa. Além de ser benéfica para o bem-estar mental, as abelhas contribuem positivamente para a agricultura, o meio ambiente e ainda fornecem mel, tornando-se um complemento essencial para a renda dos agricultores familiares.

Observa-se um aumento significativo dessa atividade nos estados do Amazonas, Rondônia e Pará nos últimos anos, em grande parte devido à presença de abelhas nativas especializadas na polinização de culturas como o guaraná, o cafeeiro e o açaizeiro. A meliponicultura desempenha um papel vital na promoção da biodiversidade e no apoio à produção agrícola nessas regiões.

É importante notar que as espécies de abelhas sem ferrão, que são o foco da meliponicultura, são altamente regionais, mesmo dentro de biomas extensos, como a Amazônia. Por exemplo, no Pará, a jupará (Melipona interrupta) é predominante na região Oeste do estado, enquanto a uruçú (M. seminigra) é encontrada na região Sudeste paraense, e as uruçus amarela (M. flavolineata) e cinzenta (M. fasciculata) são mais comuns na região Nordeste do estado. Essa diversidade de espécies é fundamental para o equilíbrio ecológico e a preservação da biodiversidade.

Desafios da atividade

“Apesar do grande potencial existente, a atividade ainda se encontra limitada devido a diversos fatores, tais como o volume, a homogeneidade e a qualidade da produção, além da falta de organização no segmento produtivo”, analisa o pesquisador.

No entanto, a apicultura, de acordo com Santiago, tem demonstrado a capacidade de otimizar a organização dos produtores por meio da formação de associações, seja através do compartilhamento de equipamentos, da mão de obra coletiva e do aumento do volume de produção, que supera a da meliponicultura.

“Considerando que as atividades de criação racional de abelhas sociais são geralmente conduzidas por agricultores familiares, cada uma delas apresenta particularidades próprias, seja relacionadas aos produtos gerados ou ao comportamento das diferentes espécies de abelhas em relação ao ambiente”, comenta o pesquisador.

Joelma Nunes, presidente da Cooperativa de Trabalho dos Agricultores Familiares de Primavera (Cooprima), destaca que um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento da meliponicultura na região é a complexidade das regulamentações. “Para vender a produção, os meliponicultores precisam estar devidamente registrados junto aos órgãos responsáveis e seguir as boas práticas de produção. Essas informações precisam ser amplamente divulgadas para transformar a realidade”, explica.

Recentemente, nos estados do Amazonas e Pará, foram implementadas legislações para promover a criação de abelhas nativas (Resolução CEMAAM Nº 34 de 27/12/2021) e a comercialização de seus produtos (Portaria N°7554/2021). “Essas regulamentações têm impulsionado a organização da cadeia produtiva em seus respectivos estados, no entanto, a atividade ainda carece de apoio financeiro”, avalia Santiago. Ele considera que o pagamento por serviços ecossistêmicos é uma ferramenta crucial para subsidiar os produtores e fortalecer a atividade na Amazônia.

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