>> Reportagem faz parte de série especial sobre mudanças climáticas
O produtor rural Luiz Fachini seguiu o caminho do pai, cultivando café em José Bonifácio, no interior de São Paulo.
– De repente caíram os preços do café e precisamos inventar outras plantações para equilibrar o orçamento da família – conta.
Além do preço, outro fator contribuiu para o fim do café na cidade. A região, que já é conhecida pelo calor, sofreu um aquecimento ao longo dos anos. A temperatura subiu em média 2ºC. O café não resistiu e a paisagem mudou. Os cafezais que predominavam no passado cederam espaço às seringueiras.
A região hoje é responsável por 59% da produção nacional de borracha, que tradicionalmente é ligada ao norte do país. A cana-de-açúcar foi outra cultura favorecida pelas temperaturas mais altas.
Fachini, que no passado chegou a plantar 40 mil pés de café, se rendeu as mudanças do clima. Desde então plantou laranja, arroz, soja e milho, mas acabou na cana e na seringueira.
– Eu não sei por que o clima mudou. Mas estamos sentindo na pele o calor – afirma.
O produtor é mais uma entre tantas vítimas das mudanças climáticas. O aumento das temperaturas é causado pela emissão de CO2, mais conhecido como gás carbônico, na atmosfera. O aumento médio de 1ºC ou 2ºC pode ser implacável numa região de clima temperado que cultive pêra, maçã, uva ou pêssego. São atividades que não toleram calor e acabam migrando para lugares altos de clima mais ameno.
Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a área plantada e a produtividade de culturas como algodão, arroz e café podem diminuir. A projeção, baseada em estudos realizados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) sobre o aumento da temperatura global, é de que os prejuízos na agricultura causados pelas mudanças climáticas até 2020 podem chegar a R$ 7 bilhões. Em 2070 os prejuízos podem ser maiores, R$ 12 bilhões.
O meteorologista Paulo Etchichury afirma que não há motivo para pânico. Segundo ele, é possível por meio da tecnologia, reverter muitos dos resultados negativos.
– Não podemos afirmar que vão mudar as coisas de forma decisiva porque o ser humano tem suas questões de adaptabilidade. Através da ciência e tecnologia vai buscando condições de produzir cada vez mais adequadas ao meio. É neste aspecto que se espera que nós tenhamos a chance de reverter este quadro de possível aquecimento. Isto é um papel tanto do setor rural quanto do setor urbano no consumo de energia – relata.
A Embrapa Meio Ambiente, localizada em Campinas, realiza desde 1996 o Zoneamento Agrícola de Riscos Climáticos, um programa que mede o risco de plantio de cerca de 30 culturas para mais de cinco mil municípios espalhados pelo Brasil. O trabalho possibilita saber o que, onde e como plantar de forma mais segura.
– Nós temos o cenário para agricultura entre 2020 e 2050 alertando de que temos que produzir culturas como por exemplo, cultivares de soja mais tolerantes ao calor, para que não haja muita modificação na sojicultura brasileira. Os melhoristas estão trabalhando não só na produção de variedades tolerantes a pragas e doenças mas também ao do calor e a deficiência hídrica – afirma o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Hilton Silveira Pinto.
Fachini já aprendeu a lição e está atento ao que pode vir pela frente.
– De quando eu era criança até hoje mudou muito e isto vai continuar acontecendo. É inevitável – conclui.