Série Retrospectiva, Perspectiva 2014 faz estimativas para o setor sucroenergético

Prejuízos acumulados nos últimos três anos levaram mais de 40 usinas pelo país ao fechamentoProdutores pedindo socorro para o governo. Indústrias trabalhando no vermelho e muitas fechando as portas. A reportagem desta segunda, dia 16, da série especial Retrospectiva, Perspectiva 2014 mostra quais as estimativas para o setor sucroenergético.

Os prejuízos acumulados nos últimos três anos levam ao fechamento de mais de 40 usinas pelo país. Desesperados, os produtores de Sertãozinho, interior de São Paulo, grande pólo de produção de cana de açúcar, pedem socorro e lançam a “Carta Sertãozinho”.

– Começou em Piracicaba. Nós fizemos uma reunião e veio gente de todo o Estado de São Paulo e nós fizemos o primeiro protesto para ver o que ia fazer. Foi uma manifestação. Daqui foi para Sertãozinho e de Sertãozinho foi para Brasília – diz José Coral, presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana).

A exigência pela mecanização faz diminuir mês a mês as queimadas da palha da cana. Com isso, a quantidade de gás carbônico que deixou de ser emitido no ar chega ao equivalente a 50 mil ônibus circulando durante um ano. Só que na região de Piracicaba, no interior de São Paulo, os produtores são pegos de surpresa. O prazo que iria até 2017 é derrubado, e uma liminar da Justiça impede totalmente o processo de queima da palha, o que deixa produtores sem saída: a mão de obra fica escassa, o frete encarece e os preços despencam.

– Até o ano passado, na safra 2012/2013, conseguimos pegar cana na média de R$ 63 a tonelada. E neste ano o preço da tonelada está em torno de R$ 58 – afirma o produtor Nelson Viel.

Além de ter visto o preço da cana cair neste ano em relação ao ano passado, Viel ainda se deparou com outro problema: o aumento do custo de produção, que chegou a subir mais de 30% na propriedade dele. Consequentemente, o produtor fechou no prejuízo.

– Os insumos também encareceram bastante, devido ao aumento do dólar. O adubo subiu, o herbicida subiu, a mão de obra subiu – continua Viel.

De Brasília, o governo aumenta o percentual da mistura do etanol à gasolina, que passa de 20% para 25%. Ao mesmo tempo, é anunciada a redução de tributos para o setor, na tentativa de dar fôlego aos produtores.

– Quando você faz uma redução de tributos, você está reduzindo custos. Estamos fazendo a redução de custos e a expansão dos investimentos. Expansão dos investimentos é aumento da oferta. Ambos os elementos beneficiam a contenção da inflação – afirma o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

– Neste momento, foi muito importante essa medida. Ela não soluciona todos os problemas do setor, mas está na direção correta – afirma o presidente da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Elizabeth Farina.

A cobrança por medidas fez surgir a frente parlamentar de ajuda ao setor sucroenergético, com o objetivo de criar políticas públicas que estimulem a competitividade da produção de cana de açúcar.

As obras do etanolduto, no trecho de Ribeirão Presto a Paulínia, interior de São Paulo, foram inauguradas em agosto, cinco meses depois do previsto. E o trecho de Uberaba, no sul de Minas Gerais, inicia as obras, depois de receber mais de R$ 400 milhões de investimento. Quando estiver concluído, o sistema vai passar por 45 municípios em cinco Estados, transportando cerca de 20 bilhões de litros de combustível por ano, tirando mais de 90 mil caminhões das estradas do país. A previsão é para 2017.

Foi justamente o excesso de caminhões e todo o caos logístico para embarque e desembarque que prejudicaram as exportações de açúcar, deixando os armazéns cheios. Dois incêndios queimaram depósitos, reduziram a oferta e causaram estragos ambientais. Em outubro, no Porto de Santos (SP), as chamas destruíram o armazém da Copersucar. Menos de um mês depois, em Santa Adélia (SP), o incêndio atingiu cerca de 30 mil toneladas de açúcar bruto da usina Agrovia.

No dia do incêndio em Santos, a cotação do açúcar na bolsa de Nova York subiu quase três pontos para o primeiro vencimento. Mesmo assim, a situação para os produtores brasileiros permaneceu ruim.

A moagem da cana-de-açúcar, em 2013, na região Centro-Sul ficou 11% acima da de 2012, somando mais de 570 milhões de toneladas, com 45,64% destinados à produção de açúcar. Em números, o ano fecha com produção dentro da expectativa, mas com qualidade ruim. O açúcar total recuperável, o ATR, reduziu a níveis históricos e fez os produtores perderem ainda mais a rentabilidade nos canaviais. A concentração de açucares na cana colhida caiu 1,53%, de 135 quilos por tonelada na safra 2012/2013 para 133 quilos na safra atual.

– O número de ATR da cana foi reduzido por causa das condições climáticas, chuvas. Depois, estresse. Em regiões maiores, foi a geada também ajudou a prejudicar, porque queimou a cana e a matéria prima caiu – afirma Coral.

O ano acaba tão difícil quanto começou. E, de acordo com os especialistas, a perspectiva é de um 2014 mais preocupante para os produtores. A recomendação é de muito cuidado no planejamento, já que mesmo descapitalizado, o produtor vai precisar investir em mecanização. O próximo ano é o último da colheita manual autorizada.

Enquanto isso, os Estados Unidos mudam a política energética e a agência de proteção ambiental norte-americana propõe a redução da mistura de etanol na gasolina do país, num valor 16% abaixo do que havia sido fixado por lei em 2007. A proposta é polêmica e gera insegurança em todo o mundo, entre produtores e empresas que investiram com base na demanda americana.

No Brasil, mesmo fechando 2013 com saldo negativo, a tendência é de que a área plantada aumente cerca de 8%. E os analistas ainda não sabem dizer se direção será o açúcar ou ao álcool.

>> Leia mas notícias sobre cana-de-acúcar

Assista à reportagem do Rural Notícias

Clique aqui para ver o vídeo

Confira o comentário de Miguel Daoud sobre o tema

Clique aqui para ver o vídeo