RECUO

Após invasão de terminal da Cargill, governo federal revoga decreto das hidrovias na Amazônia

Medida suspende os efeitos do Decreto nº 12.600, que havia incluído rios da região no Programa Nacional de Desestatização

Foto: Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação
Foto: Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação

O Governo Federal suspendeu os efeitos do decreto que previa o início de estudos para a concessão de hidrovias na Amazônia. A decisão foi oficializada na edição desta terça-feira (24) do Diário Oficial da União (DOU), com a publicação do Decreto nº 12.856. A medida interrompe, entre outros pontos, o avanço de análises relacionadas à hidrovia do Rio Tapajós e de trechos dos rios Madeira e Tocantins.

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O novo decreto revoga os efeitos do Decreto nº 12.600, assinado em agosto de 2025, que havia incluído segmentos desses rios no Programa Nacional de Desestatização (PND). O projeto abria caminho para estudos voltados à concessão à iniciativa privada, incluindo atividades como dragagem e exploração das hidrovias. A suspensão ocorre após uma série de protestos liderados por povos indígenas contrários à proposta.

Suspensão dos estudos

De acordo com o texto publicado no Diário Oficial, a nova norma interrompe formalmente o início dos estudos de concessão. A decisão foi anunciada na segunda-feira (23) pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e pela ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. Segundo o governo, a medida atende a reivindicações de comunidades indígenas, principalmente das que vivem na região do Baixo Tapajós, no oeste do Pará.

Ao comentar o recuo, o ministro afirmou que a decisão reflete o compromisso do Executivo com o diálogo. Em declaração a jornalistas, destacou que o governo optou por rever uma decisão própria diante das manifestações apresentadas pelas comunidades afetadas.

Protestos e ocupações

A suspensão do decreto ocorre em meio a um contexto de mobilizações e episódios de tensão envolvendo indígenas e a multinacional do agronegócio Cargill. Em manifestações contrárias ao projeto das hidrovias, indígenas chegaram a ocupar o terminal portuário da empresa em Santarém (PA), às margens do Rio Tapajós. Além disso, grupos também realizaram atos em outras cidades, incluindo períodos de acampamento em Brasília e em São Paulo.

A Cargill informou que foi alvo de duas ações na noite de sexta-feira (20). Em São Paulo, um grupo vandalizou a fachada do prédio onde funciona o escritório da companhia. Horas depois, o terminal portuário de Santarém foi invadido. Segundo a empresa, a unidade já enfrentava bloqueios na portaria de caminhões havia cerca de 30 dias, em decorrência de protestos.

Operações interrompidas

Após a invasão do terminal, a empresa declarou ter acionado o plano de emergência. Funcionários buscaram abrigo em áreas fechadas até que a evacuação fosse realizada com segurança. De acordo com a companhia, o terminal permanece ocupado e há indícios de depredação. As operações foram integralmente interrompidas.

A Cargill afirmou que respeita o direito à manifestação, mas ressaltou que não possui ingerência sobre a pauta dos manifestantes. A empresa informou ainda que obteve decisão judicial para a desocupação da área e que mantém contato com as autoridades para o cumprimento da medida.

Posição das lideranças indígenas

O movimento indígena sustenta que os atos têm caráter pacífico e estão diretamente ligados à contestação do Decreto nº 12.600. Por meio das redes sociais, a liderança indígena Olisil Oliveira criticou decisões judiciais relacionadas ao acesso ao terminal de Santarém, classificando-as como formas de repressão.

Segundo Oliveira, os manifestantes condicionavam a saída do local à revogação do decreto que previa os estudos das hidrovias. O argumento central das comunidades é que o projeto poderia gerar impactos socioambientais e afetar territórios tradicionais.

Com a publicação do Decreto nº 12.856, o Governo Federal formaliza a suspensão dos estudos e atende à principal reivindicação apresentada pelos grupos indígenas mobilizados nas últimas semanas.