EXPORTAÇÕES AMEAÇADAS

Pix é o principal motivo do novo tarifaço, e EUA são dependentes do agro brasileiro, diz especialista

Para o professor da Unesp, governo Trump utiliza tarifas para pressionar o Brasil sobre sistema de pagamento digital

tarifas donald trump
Foto: Reprodução

O Pix é o principal motivo da nova ofensiva comercial dos Estados Unidos contra o Brasil, afirma o professor do Departamento de Ciências Políticas e Economia da Unesp e especialistas em relações internacionais Marcelo Fernandes de Oliveira. Segundo ele, apesar das alegações envolvendo meio ambiente e trabalho escravo, o foco da investigação americana está no sistema brasileiro de pagamentos.

A investigação foi aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da legislação comercial americana, instrumento que permite ao governo aplicar sanções a países acusados de adotar práticas consideradas desleais. Nesta semana, o órgão iniciou uma série de audiências públicas para ouvir representantes do setor privado, especialistas e demais interessados antes de concluir o processo.

A decisão final é esperada até 15 de julho e poderá resultar em duas novas tarifas sobre produtos brasileiros: uma adicional de 25%, justificada por supostas práticas comerciais desleais , entre elas o Pix e alegações ambientais, e outra de 12,5%, relacionada à avaliação de que o Brasil não estaria adotando medidas suficientes para combater o trabalho forçado. Caso ambas sejam implementadas, a carga adicional poderá chegar a 37,5% sobre as exportações brasileiras.

Tarifaço 2.0

Segundo Fernandes, diferentemente do tarifaço anunciado em 2025, desta vez a investigação segue um rito previsto na legislação americana, o que torna uma eventual retaliação mais difícil de ser revertida.

“Esse não é um processo como foi o do ano passado, um rompante do presidente Donald Trump. Agora, tudo ocorreu dentro das leis americanas, seguindo uma investigação que vem sendo construída há cerca de seis meses. Isso torna muito mais difícil evitar a aplicação das tarifas.”

Para o especialista, o centro da investigação não está nas questões ambientais ou trabalhistas, mas nos interesses das gigantes da tecnologia e na geopolítica do sistema financeiro internacional.

Segundo ele, empresas como Meta e Google pressionaram o governo americano porque enxergam o Pix como uma ameaça aos seus projetos de pagamentos digitais.

“O Pix é a pedra no sapato exatamente da Meta e também do Google. Estamos falando da segunda e da quinta maiores empresas do mundo, que pressionaram o representante comercial dos Estados Unidos porque tinham interesse no mercado brasileiro de pagamentos digitais.”

Na avaliação do professor, o receio dos Estados Unidos vai além do mercado brasileiro.

Ele explica que existe preocupação com uma futura integração dos sistemas de pagamento dos países do Brics, reduzindo a dependência do dólar nas transações internacionais.

“Se houver integração apenas entre os países do Brics, há um deslocamento de cerca de 20% da intermediação do dólar no comércio internacional. Estamos falando de trilhões de dólares. Esse é o jogo que o Brasil se enfiou.”

Mesmo diante da ameaça de novas tarifas, Marcelo Fernandes acredita que o governo brasileiro dificilmente fará concessões sobre o sistema de pagamentos.

“O Pix caiu no gosto do brasileiro. Nenhum governo, seja o atual ou qualquer outro, teria espaço político para enfraquecê-lo, principalmente em ano eleitoral”, afirma.

Segundo ele, uma possível alternativa seria limitar apenas uma futura integração internacional do Pix, mantendo seu funcionamento exclusivamente no mercado doméstico. No entanto, o especialista observa que os movimentos recentes do governo brasileiro apontam na direção oposta, com aproximação financeira de países como a China.

EUA dependem mais do agro brasileiro

Apesar da preocupação com um possível tarifaço, o professor afirma que o agronegócio brasileiro possui capacidade para encontrar novos mercados e que os próprios Estados Unidos dependem de produtos brasileiros em segmentos estratégicos.

“Quem precisa da gente são eles. Nós temos outros mercados para escoar nossa produção.”

Segundo ele, o histórico do tarifaço anterior demonstra essa dependência. Em 2025, carnes, café e suco de laranja foram inicialmente atingidos, mas boa parte das restrições acabou sendo revista diante dos impactos para consumidores e empresas americanas.

“No caso da carne, do café e do suco de laranja, os próprios Estados Unidos perceberam que estavam elevando custos para sua população. Os americanos estão entre os maiores consumidores desses produtos no mundo, e isso gera inflação e desgaste político”, explica.

Além disso, o especialista lembra que grandes frigoríficos brasileiros possuem estrutura produtiva e logística instalada nos Estados Unidos, gerando empregos e movimentando a economia americana.

Indústria brasileira pode sentir impacto maior

Embora o agronegócio esteja entre os setores que podem ser afetados por um eventual tarifaço, Marcelo Fernandes avalia que os maiores impactos tendem a recair sobre a indústria brasileira.

Segundo ele, o agro possui uma vantagem competitiva importante: seus produtos têm demanda global e podem ser redirecionados para outros mercados caso as vendas aos Estados Unidos diminuam.

“Nós podemos ter uma crise durante uma safra por causa do tempo necessário para abrir novos mercados. Entretanto, o Brasil tem uma expertise muito alta no setor agrícola e os nossos produtos serão aceitos em outros lugares. Não vejo o tarifaço como uma grande ameaça para o agro especificamente, porque nós temos saídas.”

Para o especialista, a situação é diferente na indústria, cuja relação comercial com os Estados Unidos envolve produtos de alto valor agregado e cadeias produtivas mais difíceis de substituir.

Ele cita como exemplo o setor automotivo. Após a crise financeira de 2008, montadoras americanas passaram a utilizar motores menores e mais eficientes, segmento no qual o Brasil se tornou fornecedor relevante de motores flex e componentes automotivos.

“Os carros norte-americanos hoje saem de fábrica com motores produzidos no Brasil, além de diversas autopeças. São produtos de alto valor agregado, que geram empregos qualificados e arrecadação de impostos. É aí que vejo o maior perigo.”

Segundo ele, uma eventual retração das exportações industriais teria efeito em cadeia sobre a economia brasileira.

“Se houver perda de arrecadação, o governo terá menos recursos. Isso pode significar redução da capacidade de investimento e até menos dinheiro para políticas como o Plano Safra. Ou seja, mesmo que o agro encontre novos mercados, ele pode ser afetado indiretamente pela perda de arrecadação provocada pela indústria.”

Negociação deve ser técnica

Marcelo Fernandes também defende que a resposta brasileira ao possível tarifaço seja conduzida exclusivamente pela equipe técnica responsável pelas negociações internacionais.

Para ele, diferentemente do debate político, disputas comerciais dessa natureza envolvem legislação, acordos internacionais e procedimentos bastante específicos.

“Comércio internacional não pode ser tratado no gogó. É uma coisa séria para o país inteiro, atinge vários setores e precisa ser tratado de maneira técnica.”

O especialista destaca que o Brasil possui uma das estruturas diplomáticas mais respeitadas do mundo e cita o Itamaraty como peça-chave para tentar reduzir os impactos da investigação conduzida pelos Estados Unidos.

“O serviço diplomático brasileiro é um dos melhores do mundo. Nós temos que confiar nessas ilhas de excelência técnica que existem no Estado brasileiro. No Itamaraty há, inclusive, adidos agrícolas que trabalham exclusivamente nas negociações do agronegócio, mostrando o grau de especialização da diplomacia brasileira.”