OPINIÃO

100 dias de guerra: os fatores que estão redesenhando o mercado global de fertilizantes e impactos para a safra 26/27

Com a queda da ureia e os preços elevados dos fosfatados, agricultores enfrentam um cenário de decisões estratégicas para preservar margens e produtividade na próxima safra

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Nitrato de amônio. Foto: Pixabay

Passados mais de 100 dias desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, o
mercado global de fertilizantes tem apresentado mudanças significativas. Se por
um lado as tensões geopolíticas continuam preocupando quanto à oferta de
insumos e aos custos logísticos, a exportação chinesa e a demanda indiana
passaram a exercer influência ainda maior sobre a formação dos preços nas
últimas semanas, em que a ureia apresentou queda expressiva.

Ainda assim, o agricultor brasileiro enfrenta o desafio de equilibrar margens mais
apertadas, especialmente para a soja, com um cenário de incertezas climáticas
relacionadas à previsão de El Niño e custos elevados de produção impulsionados pelo
preço dos fosfatados, fatores que podem levar à redução do grau de tecnologia e perdas
em produtividade.

Nitrogenados aliviam parcialmente os custos de produção, com melhora para o milho

Entre os principais destaques dos últimos meses está a queda dos preços da ureia diante
de uma combinação de fatores baixistas, incluindo o aumento das exportações chinesas
através da liberação de novos volumes nas cotas, e a sazonalidade, com período de
negócios mais lento após a finalização das compras pelo Hemisfério Norte.

Além disso, a quebra de demanda pelos principais compradores globais – com exceção
da Índia subsidiada – contribuiu para aliviar parte da pressão sobre os preços,
favorecendo uma melhora gradual das relações de troca nas últimas semanas. No Brasil,
o preço da ureia retornou a patamares pré-guerra, com queda de US$ 200/t em um mês.
A relação de troca do milho com a ureia melhorou em torno de 20 sacas em relação ao
início de maio. Ainda assim, o índice está acima da média histórica e significativamente
superior ao mesmo período do ano passado.

Nesse contexto, a cautela permanece entre os agricultores, mas os negócios para a safra
2026/27 devem entrar no radar conforme a atual melhora de cenário e proximidade do
plantio, possibilitando a redução da exposição a possíveis riscos logísticos e oscilações
de preços mais adiante. Já para a segunda safra, ainda há espaço para novas janelas de
oportunidade.

Sulfato de amônio segue como alternativa e importações brasileiras consolidam a substituição de fontes

O sulfato de amônio permanece com o melhor custo por ponto de nitrogênio, entretanto,
a diferença diminuiu significativamente com a recente queda da ureia, exigindo uma
análise mais detalhadas sobre o custo por unidade de nutriente e adequação agronômica
para cada sistema produtivo.

A fonte de menor concentração está mais disponível no mercado interno: de janeiro a
maio foram importadas 2 milhões de toneladas de sulfato de amônio, volume 15%
superior em relação ao mesmo período do ano passado. Em contrapartida, os volumes
de ureia registram o menor nível dos últimos anos, com 1,58 milhões de toneladas,
queda de 25% em relação a janeiro a maio de 2025.

Fosfatados continuam como principal gargalho, sem perspectiva de melhora a tempo da safra de verão

Se os nitrogenados trouxeram algum alívio, os fosfatados continuam com sérios
problemas de limitação de oferta, sustentando os altos patamares de preço.

O setor continua enfrentando restrições na disponibilidade de enxofre, em que cerca de
45% do volume é exportado pelo Estreito de Ormuz. A matéria-prima, fundamental para
a produção de fertilizantes fosfatados, está em níveis máximos de preço, dificultando a
margem industrial e consequentemente o fornecimento do fertilizante. Além disso,
cresce a competição pelo ácido fosfórico destinado à cadeia de baterias para veículos
elétricos, adicionando um componente estrutural de suporte às cotações.

Vale ressaltar ainda, que apesar do alívio nas cotas de exportação de nitrogenados, a
China mantém as limitações para os fosfatados e também enfrenta dificuldades de
produção devido ao enxofre.

O resultado é um cenário de manutenção dos preços do MAP e substitutos em
patamares elevados e relações de troca historicamente desfavoráveis, com impacto no
custo de produção da safra 26/27. Em junho deste ano, são necessárias em torno de 10
sacas a mais de soja para a obtenção de 1 tonelada de MAP comparado ao mesmo
período do ano passado.

Potássicos em estabilidade possibilitaram adiantamento das compras

Diante das turbulências dos nitrogenados e fosfatados, os potássicos apresentaram-se
com ampla estabilidade, disponibilidade estável e demanda constante, trazendo maior
previsibilidade para os negócios e possibilitando o adiantamento das compras. De
janeiro a maio, o Brasil importou 5,8 milhões de toneladas de KCl, quantidade 8%
superior ao mesmo período do ano passado.

Para o agricultor, apesar do preço estar mais alto em relação ao ano passado, as relações
de troca não destoam tanto quanto os outros fertilizantes, permitindo aquisições mais
seguras.

Impactos e estratégias para a safra 26/27

Com os custos de produção impactados pelos fertilizantes fosfatados, é esperado
redução nas aplicações do fertilizante. Outro movimento observado é a maior
participação de fontes de menor concentração nutricional em substituição a fertilizantes
tradicionalmente utilizados, reflexo da busca por alternativas economicamente mais
viáveis.

Cada produtor deve se atentar aos ajustes possíveis dentro de sua realidade.
Ferramentas como análise de solo, manejo localizado, escolha adequada das fontes e
avaliação criteriosa do custo-benefício, são fundamentais para maximizar o retorno
econômico do sistema produtivo.

Outra variável que merece atenção é a logística quanto ao aumento do custo de frete e
riscos relacionados ao timing da entrega conforme os atrasos na tomada de posição.

Dessa forma, a decisão assertiva deve considerar, além do custo dos fertilizantes, com
cada nutriente tendo sua particularidade, os riscos associados ao clima, logística e à
manutenção da produtividade.

*Maísa Romanello é engenheira agrônoma, especialista em fertilizantes da consultoria Safras & Mercado


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