OPINIÃO

A lição deixada pela restrição da União Europeia ao agro do Brasil

O episódio envolvendo as exportações de produtos de origem animal evidencia que competitividade hoje depende tanto da qualidade da produção quanto da capacidade de comprová-la

Veto da UE às carnes brasileiras pauta Fiap 2026. Exclusão do Brasil gera impacto e debate sobre regras sanitárias e comércio no Mercosul
Imagem gerada por IA para o Canal Rural

A exigência europeia é outra. O bloco passou a requerer garantias formais de que determinados antimicrobianos proibidos em seu território não foram utilizados durante toda a vida dos animais destinados à exportação.

Para isso, exige protocolos específicos, rastreabilidade individual, auditorias e sistemas de certificação capazes de comprovar essas informações.Em outras palavras, produzir corretamente já não basta.É preciso provar.

O governo reagiu, mas a adequação foi lenta

A documentação mostra que o Ministério da Agricultura iniciou as discussões com os setores produtivos ainda em 2023. Houve dezenas de reuniões técnicas, troca de informações com as autoridades europeias, elaboração de protocolos privados, publicação de portarias e intenso trabalho diplomático.

Ao mesmo tempo, o próprio histórico revela que o principal protocolo destinado à cadeia bovina só foi homologado no fim de maio de 2026, quando a União Europeia já havia divulgado a minuta retirando o Brasil da lista de países habilitados.

Não se trata, necessariamente, de apontar culpados. Mas os fatos indicam que a velocidade das adequações ficou abaixo da velocidade das novas exigências impostas pelo mercado europeu. Enquanto isso, os concorrentes permaneceram no mercado

Um aspecto chama atenção. Argentina, Paraguai e Uruguai continuaram habilitados a exportar para a União Europeia.

Isso significa que os compradores europeus não deixarão de importar esses produtos. Caso o Brasil enfrente restrições, eles poderão simplesmente ampliar as compras junto a outros fornecedores. No comércio internacional, espaço perdido raramente permanece vazio.

Os impactos podem ser relevantes

A própria nota técnica do Ministério mostra que as exportações brasileiras dos setores potencialmente afetados para a União Europeia alcançaram aproximadamente US$ 2 bilhões em 2025.

As cadeias mais expostas são justamente aquelas de maior valor agregado, como carne bovina e carne de aves, responsáveis pela maior parte desse comércio.

Embora o documento ressalte que eventuais perdas dependerão da capacidade de redirecionar exportações para outros mercados, fica evidente que preservar o acesso ao mercado europeu possui importância estratégica para o agronegócio brasileiro.

Mais do que uma barreira sanitária

O próprio Ministério reconhece que se trata de uma barreira não tarifária de natureza sanitária. Esse tipo de exigência tornou-se cada vez mais frequente no comércio mundial.

À medida que as tarifas de importação diminuem, os países passam a utilizar requisitos técnicos, ambientais e sanitários como instrumentos de acesso aos seus mercados.

Independentemente das discussões sobre eventual protecionismo, essa é uma realidade com a qual os grandes exportadores precisarão conviver.

O novo ativo do agronegócio

Durante décadas, competitividade significava produzir mais e produzir mais barato. Hoje, isso continua sendo importante, mas já não é suficiente.

O diferencial competitivo passou a incluir rastreabilidade, transparência, certificação e capacidade de comprovar documentalmente toda a história do produto, desde a propriedade rural até o consumidor final. Quem exporta alimentos passou a exportar também informações.

É importante deixar claro que esta história ainda não terminou. A própria resposta oficial do Ministério da Agricultura mostra que o diálogo entre o Brasil e a União Europeia continua.

O documento informa que novas reuniões técnicas foram realizadas, que protocolos adicionais foram homologados e que o governo brasileiro segue encaminhando informações complementares às autoridades europeias na tentativa de demonstrar que o país atende às exigências estabelecidas pelo bloco.

Isso significa que a exclusão da lista não deve ser interpretada como definitiva. As negociações permanecem em andamento e a expectativa é de que os novos protocolos e sistemas de controle permitam uma reavaliação da situação.

Independentemente do resultado dessas negociações, uma lição já se impõe.

O Brasil é uma potência agropecuária, reconhecida mundialmente pela eficiência de sua produção e pela segurança sanitária de seus alimentos. Justamente por ocupar essa posição de liderança, não pode permitir que atrasos na adaptação às novas exigências regulatórias coloquem em risco mercados construídos ao longo de décadas.

O comércio internacional mudou. Hoje, produzir alimentos seguros continua sendo indispensável. Mas os compradores querem mais: exigem evidências documentadas, rastreabilidade completa e sistemas auditáveis que comprovem, sem margem para dúvidas, o cumprimento de todas as exigências sanitárias. Essa talvez seja a principal mensagem contida no documento oficial divulgado pelo governo.

Mais do que discutir quem venceu ou quem perdeu essa disputa regulatória, o episódio deve servir de aprendizado para todo o agronegócio brasileiro. Um país que ocupa posição de destaque no comércio mundial precisa estar sempre um passo à frente das exigências dos mercados internacionais, e não apenas reagir quando elas entram em vigor.

Porque a confiança também se exporta. E, no comércio internacional moderno, ela passou a ser tão valiosa quanto a carne, o leite, o mel, os ovos ou qualquer outro alimento produzido no Brasil.

*Artigo elaborado com base na resposta oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária ao Requerimento de Informação nº 1.290/2026, encaminhada à Câmara dos Deputados, contendo as manifestações técnicas da Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) e da Secretaria de Comércio e Relações Internacionais (SCRI) sobre as novas exigências da União Europeia relativas ao uso de antimicrobianos na produção animal.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural





Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.