OPINIÃO

Café sobe forte em Nova York: o que está por trás da alta?

Chuvas atrasam a colheita, estoques seguem baixos e fundos recompram contratos, impulsionando as cotações do arábica

café
Foto: Pixabay.

A forte alta do café na Bolsa de Nova York voltou a chamar a atenção do mercado. Diferentemente do que muitos imaginam, a valorização não decorre de uma quebra de safra, mas da combinação de fatores que apertaram a oferta no curto prazo e aumentaram a sensibilidade das cotações.

O primeiro deles é a forte redução dos estoques certificados da Bolsa de Nova York (ICE), que recuaram para pouco mais de 377 mil sacas, um dos menores níveis dos últimos anos. Com pouco café disponível para entrega, qualquer atraso na oferta provoca uma reação muito mais intensa dos preços.

O segundo fator é o clima. As chuvas atrasaram a colheita nas principais regiões produtoras do Brasil, especialmente no Sul de Minas e na Mogiana Paulista. Com isso, diminuiu o volume de café disponível neste momento e aumentou a preocupação com a qualidade de parte dos grãos, já que o excesso de umidade pode favorecer defeitos durante a fase final de maturação.

Ou seja, o mercado não está preocupado apenas com a quantidade de café que chega agora, mas também com a qualidade deste produto.

Fundos aceleraram a alta

Outro componente importante foi o comportamento dos investidores. Muitos fundos apostavam na queda dos preços e mantêm posições vendidas. Com a mudança do cenário, precisaram recomprar contratos rapidamente para limitar perdas, movimento que acabou acelerando ainda mais a valorização das cotações.

Esse efeito financeiro se soma aos fundamentos do mercado e ampliou o ritmo da alta observado nos últimos dias.

É importante separar o momento atual das perspectivas para os próximos meses. O que o mercado está precificando é um atraso na oferta, e não uma quebra estrutural da produção brasileira.

A safra 2026/27 continua apresentando bom potencial produtivo, favorecida pela bienalidade positiva e pelos investimentos realizados nas lavouras. Em outras palavras, o café deverá chegar ao mercado. A dúvida é apenas quando e com qual padrão de qualidade.

Nas próximas semanas, três fatores serão decisivos para o comportamento das cotações: o avanço da colheita, caso o clima permita; o posicionamento dos fundos de investimento, que podem reduzir o ritmo das recompras; e a demanda internacional, especialmente de Europa e China, que seguem recompondo seus estoques de forma gradual.

Para o produtor, o momento exige atenção. A volatilidade deve continuar elevada, e oportunidades de comercialização podem surgir rapidamente. Em um mercado com estoques reduzidos e dependente das condições climáticas, qualquer mudança no cenário é suficiente para provocar oscilações expressivas nos preços.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural





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