OPINIÃO

Como a inteligência artificial e a geopolítica estão enxugando a liquidez do campo

O ciclo virou: o dinheiro do produtor rural está sendo, em parte, sugado pela onda da inteligência artificial

Imagem mostra os efeitos do avanço da inteligência artificial no campo
Imagem gerada por IA para o Canal Rural

Quem caminha pelas lavouras brasileiras hoje respira um sentimento que vai muito além do clima. É a percepção clara de que as engrenagens financeiras e geopolíticas mundiais mudaram radicalmente de direção.

Viemos de uma onda histórica altamente positiva. Em um passado recente, o planeta se organizou sob juros baixos e emissão massiva de moedas pelos principais bancos centrais, injetando mais de US$ 31 trilhões nos mercados.

Esse cenário gerou uma liquidez sem precedentes, impulsionou economias, tirou milhões da miséria e os integrou ao consumo global.

Para o produtor rural, foi a era dourada das “vacas gordas”, com dinheiro abundante e bilhões de novos estômagos elevando o preço dos alimentos.

A engrenagem reversa e a compressão dos preços

Hoje, a física econômica faz o movimento inverso.

A inflação global forçou a subida dos juros, aumentando o custo do dinheiro e contraindo o consumo das famílias.

No mercado de commodities, o impacto é direto: com crédito caro e compradores mundiais cautelosos, os preços agrícolas sofrem retração.

A abundância dá lugar a margens espremidas, forçando o produtor a contas muito mais apertadas.

O “aspirador” da inteligência artificial

Há, contudo, um ingrediente novo e avassalador nessa virada: a Inteligência Artificial (IA).

Atualmente, grande parte do crescimento da economia americana vem dessa revolução tecnológica.

No primeiro trimestre de 2026, estimativas mostraram que cerca de 50% a 67% do crescimento do PIB dos EUA estava relacionado direta ou indiretamente aos investimentos em IA e infraestrutura de data centers.

Essa expectativa gerou uma corrida do ouro em Wall Street. Empresas do setor alcançaram trilhões de dólares, capturando fatias massivas de capital global.

Como o investidor atua pelo custo de oportunidade, o capital especulativo foge de ativos tradicionais e tangíveis, como os contratos futuros de soja, milho e café.

A IA funciona como um gigantesco aspirador de liquidez global: o dinheiro que antes sustentava as cotações do agro agora compra chips e processamento de dados nos Estados Unidos.

O isolacionismo americano e o novo cenário global

Para agravar a escassez de capitais no agro, Washington mudou o tabuleiro geopolítico.

Se antes os Estados Unidos buscavam parceiros globais para expandir sua influência, hoje a postura americana é isolacionista.

Ao adotar posições protecionistas, a maior potência do mundo se afasta de aliados e gera atritos que travam o comércio internacional.

Somando-se a isso a crônica instabilidade no Oriente Médio, que encarece fretes marítimos, rotas de navegação e fertilizantes, o cenário para as commodities fica ainda mais pissed. É a transição definitiva para as “vacas magras”.

O aprendizado dos ciclos históricos

A história econômica é feita de oscilações cíclicas. Toda vez que o mercado enfrenta contração de liquidez e uma mudança tecnológica desse calibre, o setor primário sente o primeiro baque.

A demanda por comida é constante, mas o preço que o mundo paga por ela depende diretamente do dinheiro circulando no sistema financeiro.

O sentimento de apreensão no campo é legítimo. Diante de um governo americano isolacionista e de uma Wall Street deslumbrada com a inteligência artificial, cabe ao produtor entender que as regras mudaram.

Neste ciclo de dinheiro caro, a eficiência rígida de custos, a gestão profissional e a proteção financeira de margens serão as únicas ferramentas capazes de blindar a fazenda contra a tempestade global.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural





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