OPINIÃO

COP30 e o Brasil no olho do furacão global

Conferência pode marcar virada histórica se negociadores assumirem a realidade do novo mundo

Belém, Pará
Foto: Augusto Miranda / Ag. Pará

Em 2025, o Brasil será sede da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (COP30). Trata-se de um momento histórico, não apenas por marcar três décadas de negociações climáticas globais, mas porque acontece em um mundo em rápida transformação, onde as velhas fórmulas parecem não dar mais conta da complexidade atual.

Desde a Rio-92, quando o Brasil foi palco da maior cúpula ambiental já realizada, muita coisa mudou. O aquecimento global deixou de ser um alerta científico distante para se tornar parte do cotidiano de bilhões de pessoas. A ciência do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é cada vez mais precisa, mas a resposta política internacional continua aquém do necessário. O mundo fala muito, mas age pouco — e, frequentemente, age mal.

É preciso reconhecer que a lógica da cooperação multilateral, baseada em consensos entre mais de 190 países, se esgotou como única estratégia. Os desafios climáticos exigem modelos mais ágeis, baseados em interesses compartilhados e consentimento informado. Negociar como se estivéssemos em 1995 é insistir em um mundo que já não existe.

Tomemos como exemplo a tão falada “transição justa”. Bonito no discurso, mas vago na prática. Para quem? Com que meios? Com quais parceiros? A verdade é que, sem mecanismos concretos de financiamento e inclusão, a transição corre o risco de se tornar mais um capítulo da desigualdade global. Muitos países — e milhões de pessoas — podem ficar para trás. E, se isso acontecer, que justiça é essa?

No setor energético, o debate é igualmente enviesado. O discurso global dominante prega o fim dos combustíveis fósseis como se fosse uma missão simples e universal. Ignora-se que cada país tem sua realidade — econômica, social, tecnológica e geopolítica. A imposição de metas rígidas e homogêneas para todos é ineficaz e, em alguns casos, injusta. Se o mundo continuar no ritmo atual, chegaremos a 2050 com apenas 30% de substituição energética global. Poucos países serão carbono neutro; muitos continuarão presos à dependência
fóssil.

Na agricultura, vivemos o legado ambíguo da Revolução Verde: aumentamos a oferta de alimentos, não há mais fome por falta de alimentos, mas por desigualdade social e econômico. Contudo, degradamos o solo e os ecossistemas. Hoje, cerca de 35% das terras agrícolas no mundo apresentam algum grau de degradação. A agricultura regenerativa, que valoriza o solo vivo e os processos naturais baseados na biologia, surge como alternativa viável — e o Brasil tem potencial para liderar esse movimento.

Outra transformação que não pode ser ignorada é a revolução digital. A inteligência artificial (IA) já está reconfigurando a forma como produzimos, planejamos e nos relacionamos. Ela interfere diretamente nos modelos econômicos, nos sistemas produtivos e até nas dinâmicas sociais. Trata-se de um instrumento poderoso, que pode acelerar soluções climáticas — ou aprofundar desigualdades, se mal utilizado.

Tudo isso acontece num cenário geopolítico tenso. O chamado “Velho Mundo”, com seus 3 bilhões de habitantes e décadas de domínio econômico e diplomático e liderado pelos Estados Unidos está envelhecendo — e perdendo capacidade de adaptação. Ao mesmo tempo, o Sul Global, com mais de 5 bilhões de pessoas e 70% da juventude mundial (15 a 29 anos de idade), cresce em relevância econômica e política. E o Brasil está no meio desse jogo, podendo atuar como ponte entre blocos, continentes e visões de mundo.

Há ainda uma nova força em ascensão que merece atenção: os “silent powers”. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Singapura entre outros não são potências tradicionais, mas construíram, em silêncio, um poder de influência baseado em educação, inteligência estratégica e investimentos de longo prazo.

Hoje, são acionistas de grandes corporações mundiais, financiadores de inovação cientifica, tecnológicas e interlocutores políticos globais — sem ruído, mas com presença real. Isso também é poder.

As próximas décadas trarão mudanças drásticas. A inteligência artificial, os choques climáticos, os novos modelos econômicos e a pressão das juventudes emergentes irão redesenhar o planeta. Já em 2030, os países da Ásia-pacífico com seus 5 bilhões de habitantes irão representavam quase 60% da nova classe média global. Eles não apenas querem um novo mundo — eles vão construí-lo, com ou sem nós.

Diante disso, a pergunta que paira sobre a COP30 é simples, mas profunda: os negociadores estarão prontos para enxergar o mundo como ele realmente é e suas mega tendencias — e não como ele foi? Se sim, o Brasil poderá sediar uma COP histórica. Se não, corremos o risco de mais um encontro repleto de discursos, mas vazio de consequência.

O tempo das promessas passou. O que está em jogo agora é a nossa capacidade de transformar ambição em ação. E o Brasil, com sua diversidade, sua energia e sua posição geopolítica única, pode — e deve — ser protagonista dessa virada. Os distúrbios geopolíticos atuais são seríssimos, mas vão passar, se acomodar como em tantas outras crises mundiais. É o custo do rearranjo do poder.

*Marcello Brito é Enviado Especial COP30 para os estados subnacionais da Amazônia e secretário-executivo do Consórcio dos Estados da Amazonia Legal. Ex-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e da
Associação Brasileira dos Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma)


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