
A proximidade do esgotamento da cota chinesa para a carne bovina brasileira voltou a acender o alerta na pecuária. Ultrapassado o limite de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas, o volume excedente passa a pagar uma tarifa de 55%. Como o Brasil embarcou cerca de 1,6 milhão de toneladas para aquele mercado no último período, uma parcela relevante dessas exportações poderá enfrentar um custo adicional.
A preocupação é compreensível. Alguns frigoríficos já reduziram o ritmo das compras, alongaram as escalas de abate e, em alguns casos, concederam férias coletivas. O receio é que esse movimento exerça pressão sobre a arroba do boi gordo.
Mas será que esse cenário, isoladamente, justifica esperar uma queda acentuada dos preços?
Tarifa não significa fechamento do mercado
Antes de tudo, é importante separar os fatos das interpretações.
A China não suspendeu as importações de carne bovina brasileira. O que muda é a incidência de uma tarifa sobre o volume que exceder a cota prevista no acordo comercial. Trata-se de um mecanismo utilizado para proteger a produção doméstica, que enfrenta dificuldades para competir com a eficiência e a escala da pecuária brasileira.
Na prática, isso não interrompe o fluxo de negócios. O mais provável é que haja uma redistribuição dos custos ao longo da cadeia, envolvendo exportadores, frigoríficos, importadores e distribuidores chineses. Como ocorre em qualquer mercado competitivo, cada elo tende a absorver parte desse impacto para preservar a viabilidade das operações.
O ajuste da indústria é natural
As férias coletivas e a redução temporária do ritmo de abate reforçaram o clima de apreensão. No entanto, esse tipo de medida faz parte da estratégia operacional da indústria diante de momentos de incerteza.
É um ajuste de curto prazo, e não um indicativo de paralisação do mercado.
Os frigoríficos dependem da oferta de animais para manter suas plantas operando. Caso a disponibilidade diminua, a tendência é que voltem a disputar matéria-prima, como ocorreu em outros períodos de restrição.
O pessimismo já está precificado?
Essa talvez seja a principal questão.
Boa parte das expectativas negativas parece já estar refletida no mercado. Os contratos futuros negociados na B3 indicam maior pressão sobre a arroba durante o terceiro trimestre, mas também sinalizam recuperação no quarto trimestre.
Se os agentes esperassem uma desvalorização prolongada e intensa, esse cenário provavelmente estaria incorporado de forma mais evidente nas cotações futuras. Até o momento, não é isso que os preços indicam.
A oferta pode mudar o jogo
Há outro fator que merece atenção.
O fortalecimento do El Niño aumenta as incertezas sobre as condições das pastagens em diversas regiões produtoras. Caso o clima reduza a oferta de animais terminados, a pressão baixista sobre a arroba tende a perder intensidade.
Além disso, muitos pecuaristas que permaneceram na atividade atravessaram anos marcados por juros elevados, custos crescentes e sucessivas crises. Essa experiência tornou parte dos produtores mais criteriosa na comercialização do rebanho.
Sempre que as condições financeiras permitem, muitos optam por adiar a venda em busca de preços mais favoráveis. Essa postura reduz a disponibilidade de animais justamente quando a indústria tenta ampliar suas escalas de abate.
No fim, tudo continua dependendo da oferta
É evidente que o excedente de carne destinado à China exigirá ajustes comerciais. Parte desse volume poderá continuar sendo exportada, mesmo com a incidência da tarifa; outra poderá ser direcionada a novos mercados ou absorvida pelo consumo interno.
Ainda assim, a formação do preço da arroba continuará obedecendo ao princípio básico que rege qualquer mercado: o equilíbrio entre oferta e demanda.
Se houver menor disponibilidade de animais para abate, a indústria voltará a competir pela matéria-prima, limitando o espaço para quedas mais expressivas.
Cautela
É natural que o mercado reaja com cautela diante de uma mudança relevante nas condições de acesso ao principal destino da carne bovina brasileira. O impacto existe e não deve ser minimizado. Mas também é importante evitar interpretações que transformem uma tarifa em um embargo comercial ou que indiquem, prematuramente, uma perda definitiva do mercado chinês.
Na minha avaliação, o sentimento de cautela ainda pode influenciar os preços nas próximas semanas. No entanto, isso não significa, necessariamente, que a arroba caminhe para uma trajetória prolongada de queda.
O comportamento da oferta continuará sendo determinante. Se o clima limitar a disponibilidade de animais ou se os pecuaristas optarem por reter parte do rebanho à espera de melhores oportunidades, a indústria terá de voltar a disputar boiadas.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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