
Enquanto boa parte do debate nacional continua concentrada em crises políticas e disputas ideológicas, o mundo parece estar olhando para o Brasil por uma razão muito mais estratégica: a capacidade de alimentar uma população global cada vez maior.
Essa foi uma das principais mensagens do Fórum Internacional da Agropecuária (Fiap), realizado em Campo Grande (MS) pelo Canal Rural, que reuniu embaixadores, adidos agrícolas, especialistas e lideranças do setor para discutir o futuro da produção mundial de alimentos e energia.
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O tema central não poderia ser mais relevante. Segundo projeções internacionais, a demanda global por alimentos deverá crescer entre 50% e 60% até 2050. O desafio será alimentar quase 10 bilhões de pessoas em um cenário de mudanças climáticas, limitações de terra cultivável e crescente escassez de água em diversas regiões do planeta.
Um país raro em um mundo cada vez mais limitado
Foi justamente nesse contexto que o Brasil apareceu como protagonista.
Poucos países ainda possuem condições de ampliar significativamente a produção agropecuária. Menos ainda conseguem fazer isso combinando disponibilidade de terra, água, tecnologia, energia e produtividade.
O Brasil reúne todos esses fatores.
Além de possuir uma das maiores reservas de água doce do planeta, o país desenvolveu um modelo de agricultura tropical que permite até três safras por ano em determinadas regiões. Soma-se a isso a possibilidade de recuperar milhões de hectares de pastagens degradadas sem necessidade de avançar sobre áreas de vegetação nativa.
Não por acaso, diversos estudos apontam que o Brasil poderá responder por algo entre 30% e 40% do aumento da produção mundial de alimentos nas próximas décadas.
Produzir alimentos é produzir estabilidade
Durante o evento, uma frase do ex-ministro Roberto Rodrigues sintetizou a dimensão desse desafio.
“Onde há fome, não haverá paz.”
A afirmação vai muito além da agricultura.
A segurança alimentar passou a ser uma questão geopolítica. Países que não conseguem garantir abastecimento tornam-se mais vulneráveis a crises econômicas, conflitos sociais e instabilidade política.
Nesse cenário, a produção agropecuária deixa de ser apenas uma atividade econômica para assumir um papel estratégico na estabilidade global.
O mundo olha para o Brasil
Outro aspecto interessante do Fiap foi a percepção demonstrada pelos representantes estrangeiros presentes.
Enquanto o debate interno frequentemente se concentra nos problemas do setor, os participantes internacionais destacaram o potencial brasileiro para ampliar a oferta de alimentos, proteínas e energia renovável.
A avaliação predominante foi de que poucos países possuem condições semelhantes às do Brasil para responder ao crescimento da demanda mundial.
Essa visão também foi reforçada por Renato Costa, presidente da Friboi, ao destacar que a demanda global por proteínas continua crescendo e que o Brasil está entre os países mais preparados para atender esse mercado, combinando escala de produção, tecnologia e avanços em sustentabilidade.
O desafio de enxergar o próprio potencial
O Fiap deixou uma reflexão importante.
O mundo parece compreender com clareza a importância estratégica do Brasil para a segurança alimentar das próximas décadas.
Talvez a pergunta que fique seja outra.
Se representantes de diversos países atravessam continentes para entender o potencial da agropecuária brasileira, por que nós mesmos ainda temos dificuldade em reconhecer a dimensão do patrimônio que construímos?
O Brasil não é apenas uma potência agrícola.
É uma das poucas nações capazes de contribuir decisivamente para alimentar o planeta nas próximas décadas.
E essa talvez seja uma das maiores responsabilidades, e oportunidades, da nossa geração.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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