OPINIÃO

O que levou o Brasil à atual situação regulatória no mercado europeu?

Exigências de rastreabilidade e controles sanitários colocam o país diante de novo cenário nas exportações para a União Europeia

carne bovina frigoríficos
Foto: Freepik

O produtor rural brasileiro faz a sua parte. Investe em genética, cumpre protocolos rígidos e gasta milhões para entregar a melhor proteína do mundo. Mas, da porteira para fora, o esforço do campo esbarra em desafios regulatórios e exigências cada vez maiores dos mercados internacionais.

A exclusão do Brasil da lista de exportadores da União Europeia é o reflexo disso. A partir de 3 de setembro de 2026, o bloqueio legal entra em vigor. O problema não está na qualidade da carne brasileira, mas na necessidade de atender aos critérios de garantias regulatórias e rastreabilidade exigidos pela União Europeia.

O tema faz parte de um processo regulatório que vem sendo discutido desde 2024. A janela para envio da documentação relacionada ao controle de antibióticos foi aberta em outubro daquele ano.

Prejuízo além das cifras

A União Europeia pode não ser o nosso maior comprador em volume. No entanto, o bloco funciona como a maior vitrine regulatória do planeta. Ser barrado por Bruxelas arranha gravemente a nossa imagem internacional.

A decisão fortalece argumentos de grupos protecionistas europeus que defendem restrições adicionais às importações agropecuárias, ameaçando até o acordo Mercosul-UE. O prejuízo potencial passa de US$ 1,8 bilhão ao ano, afetando a carne bovina, de frango e o mel.

O Brasil busca avançar com novas portarias e protocolos para atender às exigências estabelecidas pela União Europeia. Esse episódio também levanta questionamentos sobre os processos de adequação às exigências europeias, os mecanismos de rastreabilidade adotados pelo país e os desafios para garantir o atendimento integral às regras estabelecidas pelo bloco.

Se novas portarias proibiram substâncias como a tilosina, espiramicina e avilamicina, permanece o debate sobre como acelerar a consolidação dos relatórios técnicos e dos mecanismos de comprovação exigidos pelas autoridades europeias desde 2024.

Também seguem em discussão os caminhos adotados para atender às exigências de Bruxelas, especialmente em relação ao controle dessas moléculas ao longo de todo o ciclo de vida do animal.

Outra questão relevante é como o Brasil pretende restabelecer sua credibilidade internacional antes de setembro e demonstrar às autoridades europeias as garantias sanitárias e de rastreabilidade exigidas pelo bloco.

O agronegócio carrega a economia do país nas costas. O produtor investiu, cumpriu protocolos e produziu. Agora, o desafio é garantir que o país consiga atender plenamente às exigências internacionais e preservar sua credibilidade junto aos mercados mais relevantes. Quando surgem entraves regulatórios, os reflexos acabam chegando ao campo.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural





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