OPINIÃO

Safra 2026/27: tempo de superação

Juros altos, incertezas climáticas e tensões geopolíticas devem transformar a temporada 2026/27 em um dos maiores testes recentes para o agronegócio

Foto: Canal Rural Reprodução
Foto: Canal Rural Reprodução

Atenção para a inteligência emocional nesta safra 2026/27: “o que eu penso da safra 26/27 não muda a safra 26/27, mas como eu penso a safra 26/27 muda a minha vida nela”.

O cenário da incerteza, dos desequilíbrios dos fatores incontroláveis, das agitações de tarifaços, investigações, guerras de redes sociais, e ano de eleição, coloca a atividade rural e a saúde mental de produtoras e produtores num severo teste que vai exigir o máximo do talento e competências de superação, quer dizer, dar a volta por cima num estado caótico de crises que se somam.

Além dos riscos de “El Niño”, dos custos elevados, de juros altos, de não termos resolvido assuntos que há décadas debatemos como: logística, armazenagem, seguro rural, plano nacional de fertilizantes, irrigação, ausência de um planejamento estratégico de estado para a integração e segurança do sistema de agronegócio reunindo o antes, dentro e pós-porteira das fazendas, temos ainda um agro concorrente poderoso, maquiavélico, ardiloso e ganancioso: USA de Trump, que ataca o mundo mas de olho total no seu mega competidor China que atinge um PIB de mais de US$ 20 trilhões, ameaçando a supremacia norte-americana com um PIB hoje na casa de US$ 32 trilhões.

E por acaso esse alvo de Trump é também o nosso principal cliente. Portanto, precisamos calma, pensamento equilibrado, inteligência emocional e fazer desta safra crítica um aprendizado que nos faça valer a pena o que iremos enfrentar.

Conversando com amigos produtores ouço deles que estarão analisando com muito cuidado os fatores dentro de suas porteiras e ouvi a expressão: “vamos fazer uma safra baratinha”. Significa com o menor desembolso possível. De outros ouço que não terão uma decisão única na sua estratégia de safra, isso irá depender de cada área da sua propriedade conforme tenha melhor palhada, áreas de maior preservação, com práticas regenerativas e previsões climáticas.

Observo também que nas crises há o estímulo para inovações essenciais, como por exemplo a economia circular transformando dejetos e desperdícios em biogás, biometano, bioeletricidade e biofertilizantes. A hora e a vez dos biocombustíveis, do ILPF, de outras possibilidades para recursos financeiros de modelos como Fiagro para setores como os hortifrutigranjeiros e outros.

Estive na Coocacer esta semana na celebração da safra do café, o clima está bem mais ameno do que nas áreas de grãos e cana, por exemplo, com preços bons na saca de café, mas já vem uma carga de tarifaços novos dos Estados Unidos de 25% mais 12,5% no solúvel colocando o CECAFÉ em estado total de alerta, além dos mesmos dramas nos custos. Idem na pecuária onde os preços sustentam, no corte, mas seguimos complicados demais no leite.

Este ano para quem seguiu os velhos e bons conselhos irá se sair bem melhor.

A prudência e a sabedoria, como eu mesmo tive a sorte de ouvir aos meus 24 anos quando no meu primeiro emprego no agro, na Jacto em Pompeia (SP), nos idos de 1977 ouvi do senhor Shunji Nishimura, seu fundador, esta pérola sagrada:

“Quando tudo vai bem se prepare para ir mal, se você estiver preparado vai se sair bem mesmo na baixa dos negócios, para isso quando vai bem investe em inovação e faz segurança financeira de caixa”.

Assim como o brilhante economista chefe da Farsul Antônio da Luz afirma:

“Agricultor não quebra na baixa, quebra na alta”.

Esta grave crise estrutural, e impulsionada fortemente por algo absolutamente impensável, o presidente do maior país do mundo, Estados Unidos, disputando uma brutal guerra de percepções planetária provoca por um lado medo, polarizações e tira o foco do que de fato pode e precisa ser organizado para superar a fase e criarmos aprendizados que nos levem a mitigar no futuro novas situações como esta. E nos coloca sob investigações do USTR em áreas delicadas como etanol e desmatamento.

Daniel Goleman, criador da inteligência emocional, revela que 11% dos seres humanos vão na frente com competência, 19% podem seguir os 11%. O problema sério está em 50% indiferente esperando que milagres aconteçam e outros 20% terroristas atacando tudo e todos e apontando culpados: os outros.

Precisamos nesta hora de uma convergência das lideranças empresariais brasileiras, todas as nossas confederações empresariais reunidas para um plano emergencial de suporte aos produtores rurais, e ações de negócios e joint venture internacionais nas áreas comerciais, industriais e de serviços no contexto do complexo do agribusiness brasileiro. Hora das inovações em tudo, desde o A do abacate ao Z do zebu.

E precisamos de um novo discurso geopolítico estratégico para não entrarmos no liquidificador da guerra das grandes potências. Por um lado, foco no ótimo acordo UE/Mercosul, vendas e acordos com todos os países do mundo, e por outro levantarmos a proposta:

“Brasil e nações do cinturão tropical do planeta reunidos para o desenvolvimento e sustentabilidade com dignidade da vida para todos”.

Criação de um cinturão tropical planetário de cidadania e crescimento com impactos mundiais.

Não se trata de Norte x Sul, Brics, e sim dos povos que vivem entre os trópicos de Câncer e Capricórnio, exatamente onde está o único país do mundo que fez a maior de todas as revoluções nos últimos 50 anos, o Brasil, criamos o agrotropical sustentável, alimentar, energético, fibras, tecnológico, empreendedor e cooperativista e estamos dentro das 10 maiores economias do mundo.

Está na hora de darmos total valor a esta obra brasileira, e a prepararmos para os próximos saltos mundiais, pois relembrando Alysson Paolinelli o herói agro tropical do mundo ele afirmou:

“O que trouxe a humanidade até aqui foi a agricultura de clima temperado, daqui para frente será a tropical”.

Precisamos do mundo e o mundo precisa de nós.

Inteligência emocional, foco no prioritário e estratégico, liderança, comunicação brasileira com o mundo da Marca Brasil percebida como natureza, povo afetivo, turismo e agronegócio; e muitas vacinas antidistrações mediáticas e fanfarronices populistas. Nós vamos superar a safra 26/27.

Link para o livro Agroconsciente: www.agricitizenship.com

José Tejon

*José Luiz Tejon é jornalista e publicitário, doutor em Educação pela Universidad de La Empresa/Uruguai e mestre em Educação Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie.


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