
A confirmação de um caso da mosca-da-bicheira americana em um bezerro de três semanas no Texas reacendeu o alerta sanitário nos Estados Unidos. O registro, confirmado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), marca o reaparecimento da praga no país após cerca de seis décadas e pode gerar impactos econômicos significativos para a pecuária norte-americana.
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Apesar da preocupação, o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em medicina veterinária Estevam Hoppe afirma que o cenário é diferente para o Brasil, onde o parasita já faz parte da realidade dos produtores rurais.
Segundo ele, o ressurgimento da praga nos Estados Unidos preocupa porque o país investiu milhões de dólares ao longo de décadas para erradicar o inseto.
“Os Estados Unidos investiram milhões de dólares em um processo bastante longo de erradicação. Foi criado um cordão de isolamento desde os Estados Unidos até o Panamá, envolvendo diversos países da América Central. O afrouxamento das medidas de vigilância e controle resultou nesse ressurgimento”, disse.
De acordo com o especialista, o principal temor das autoridades norte-americanas está nos custos necessários para eliminar novamente a praga e evitar sua disseminação.
“Da mesma forma como foi gasto muito dinheiro para fazer a erradicação, é previsto um impacto financeiro bastante grande para voltar à situação original, sem esse parasita no rebanho”, destacou.
Brasil convive com a praga
A mosca-da-bicheira americana, cientificamente chamada de Cochliomyia hominivorax, não é uma novidade para os pecuaristas brasileiros. O inseto está presente em praticamente toda a América Latina e é conhecido por depositar ovos em feridas abertas dos animais, onde as larvas se alimentam dos tecidos vivos.
Para Hoppe, o caso registrado nos Estados Unidos não representa uma ameaça adicional para o Brasil.
“Ela sempre ocorreu aqui nas Américas, desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina e o Uruguai. É um velho problema nosso aqui no Brasil. Não há risco nenhum para o nosso rebanho por causa desse caso específico”, afirmou.
O professor ressalta que, mesmo nos Estados Unidos, a ocorrência ainda é considerada pontual e não representa uma situação generalizada.
“O problema ainda é muito localizado. Existe uma preocupação grande com aumento de custos de produção e com as ações de controle, mas não se trata de uma infestação disseminada”, disse.
Atenção deve estar nas feridas
Segundo o especialista, a prevenção continua sendo a principal ferramenta para reduzir prejuízos causados pela bicheira.
A mosca é atraída principalmente por feridas recentes, o que torna momentos de manejo, transporte e nascimento dos animais períodos de maior risco.
“Essa mosca está sempre associada a feridas novas. Se o produtor entende quais são os momentos em que os animais têm mais chance de se machucar, ele consegue intensificar os cuidados e reduzir os impactos”, explicou.
Entre as situações que exigem maior atenção estão partos, castrações, descornas, procedimentos cirúrgicos e lesões provocadas durante o transporte.
O especialista destaca que os bezerros recém-nascidos estão entre os mais vulneráveis.
“O umbigo do bezerro é extremamente atrativo para essa mosca. A cura correta do umbigo e os cuidados neonatais são algumas das melhores estratégias para reduzir ao máximo os prejuízos dessa parasitose”, afirmou.
Pecuarista brasileiro sabe lidar com o problema
Embora a notícia tenha gerado repercussão internacional, Hoppe acredita que os produtores brasileiros possuem experiência suficiente para conviver com a praga sem grandes sobressaltos.
“A nossa sorte é que o pecuarista brasileiro é muito cuidadoso e tradicionalmente sempre teve uma relação próxima com o rebanho”, observou.
Entre as recomendações, ele cita a redução de fontes de ferimentos, como cercas de arame farpado, e a atenção constante ao manejo sanitário.
“Não é necessário que o produtor brasileiro se preocupe como se isso fosse um grande problema novo. Nós sabemos lidar muito bem com isso. O nosso rebanho está preparado e, com manejo adequado, conseguimos minimizar os impactos”.