
Em um momento de transição global para economias de baixo carbono, o setor agropecuário brasileiro apresentou oficialmente à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) resposta contundente baseada em ciência para os desafios climáticos e de segurança alimentar.
Uma delegação visitou a sede do órgão, em Roma, durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura (Coag), no início de junho.
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Integraram o grupo representantes da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e da Missão Diplomática do Brasil em Roma.
A ocasião marcou o lançamento internacional do estudo “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil – 2025 a 2050”, desenvolvido pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).
Diante de outras delegações estrangeiras e cientistas, o relatório demonstrou como o país consegue responder à crescente demanda global por alimentos e, ao mesmo tempo, mitigar o impacto ambiental por meio da tecnologia tropical.
Para o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, o debate na agência da ONU consolida o papel estratégico do país no abastecimento e na sustentabilidade. “O papel da ApexBrasil, em forte parceria com a nossa representação diplomática em Roma, é trazer o debate para a realidade dos números. Provamos que o Brasil é um fornecedor confiável, essencial para o desenvolvimento econômico e para a segurança alimentar mundial”, destacou.
Estudo que chamou atenção na COP30
O setor pecuário enfrenta uma encruzilhada global. Enquanto a demanda por proteína animal aumenta, os três blocos que controlam 70% do rebanho global registram quedas históricas: o Mercosul opera em seu nível mínimo de 6 anos, a América do Norte enfrenta o menor rebanho em 70 anos e a União Europeia, o menor em 30 anos.
Na contramão da retração externa, o Brasil se consolidou com o maior rebanho comercial do planeta (192,6 milhões de cabeças em 2024), mostrando que o crescimento produtivo coexiste com a preservação. O documento já havia sido formalmente apresentado durante a COP 30 de Belém em novembro do ano passado, como cobriu o Portal SNA. Na época, a repercussão já tinha sido positiva e chamara atenção pelo caráter técnico dos dados e metas ambiciosas traçadas.
A pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, detalhou os dados técnicos do estudo que traduzem esse ganho de eficiência em metas climáticas. O desacoplamento entre área e produção na pecuária de corte brasileira já é um histórico consolidado. Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina disparou mais de 240%, enquanto a área total de pastagens encolheu 11% (reduzindo de 181 para 160 milhões de hectares).
Esse salto gerou o chamado “efeito poupa-terra”, que poupou 397 milhões de hectares, área que teria sido necessária se o país mantivesse os mesmos índices de produtividade de 1990.
O Brasil utiliza apenas 30,2% de seu território para a agropecuária, mantendo 66,3% da vegetação nativa preservada, sendo que 33,2% estão resguardadas por lei dentro das propriedades rurais privadas. Esta atuação conjunta entre a produção eficiente e a diplomacia ambiental tem sido um pilar defendido pelo Ministério das Relações Exteriores em fóruns multilaterais para fortalecer a cooperação internacional.
Para o setor exportador, a apresentação do estudo dentro do Subcomitê de Pecuária do COAG (órgão que orienta as políticas agrícolas globais da ONU) funciona como um aval de credibilidade que embasa o produto brasileiro frente às exigências do mercado externo.
Com os dados apresentados na ONU, o Brasil demonstra que o investimento em biotecnologia zootécnica, aditivos alimentares e a recuperação de pastagens degradadas são os vetores reais para conciliar o combate à fome e a resiliência climática.