TENSÃO NA AMAZÔNIA

Crise na Terra do Meio: apreensão de gado provoca confronto entre pecuaristas e fiscalização; veja vídeo

Produtores questionam legalidade da operação, enquanto ICMBio afirma que animais estavam em áreas embargadas dentro da Estação Ecológica da Terra do Meio

Uma operação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com apoio da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP), provocou tensão entre produtores rurais e agentes federais na zona rural de São Félix do Xingu, na região conhecida como Terra do Meio, no sudeste do Pará. O episódio ocorreu na última terça-feira (9) durante uma ação de apreensão de gado na Estação Ecológica da Terra do Meio.

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram produtores tentando impedir a retirada dos animais e soltando parte do rebanho que estava sendo transportado pelos agentes. A reação ocorreu em meio à Operação Pasto Nullus, deflagrada pelo ICMBio no último dia 3 de junho com o objetivo de combater o desmatamento ilegal e a atividade pecuária considerada irregular dentro da unidade de conservação.

A região da Terra do Meio é uma das áreas mais sensíveis da Amazônia em relação aos conflitos fundiários e ambientais. O episódio ampliou o debate sobre fiscalização ambiental, segurança jurídica e os limites da atuação dos órgãos federais em áreas protegidas.

Segundo relatos de produtores e lideranças locais, a ação teria ocorrido sem a apresentação de ordem judicial. Em vídeo divulgado nas redes sociais, o deputado federal Delegado Caveira (PL-PA) questionou a legalidade da operação.

“Não apresentaram ordem judicial ou qualquer outro dispositivo legal para estar cometendo essas atrocidades na fazenda do senhor Pedro Coco”, afirmou o parlamentar.

A Estação Ecológica da Terra do Meio é uma unidade de conservação de proteção integral, categoria na qual a exploração econômica privada é proibida. De acordo com o ICMBio, os animais apreendidos estariam sendo criados irregularmente dentro da área protegida e em locais oficialmente embargados pelo próprio instituto.

Em nota, o órgão afirmou que as apreensões seguem uma série de dispositivos administrativos e jurídicos e são consideradas uma ferramenta essencial para interromper atividades ilegais em áreas onde os embargos ambientais não vêm sendo respeitados.

Segundo o instituto, os rebanhos estavam pastando em áreas já embargadas, cujos ocupantes haviam sido previamente notificados. O órgão sustenta que a permanência da atividade pecuária nessas condições configura descumprimento reiterado da legislação ambiental brasileira.

O ICMBio também informou ter identificado irregularidades sanitárias durante a fiscalização. Conforme o órgão, parte dos animais não estaria declarada junto à Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), situação que poderia caracterizar fraude na atividade pecuária e representar riscos ao controle sanitário da produção.

Ainda segundo o instituto, a operação está sendo conduzida com respaldo jurídico e respeita processos de regularização fundiária em andamento, além de garantir o direito à ampla defesa e ao contraditório dos envolvidos.

As operações de retirada de gado em áreas protegidas vêm sendo utilizadas com frequência crescente pelos órgãos ambientais federais nos últimos anos. O ICMBio afirma que esse tipo de ação tem contribuído para reduzir o desmatamento ilegal em unidades de conservação da Amazônia.

Enquanto entidades ligadas à proteção ambiental defendem o rigor na fiscalização para conter o avanço do desmatamento, produtores rurais da região relatam prejuízos e questionam a legalidade dos procedimentos adotados. O episódio reforça a tensão histórica entre conservação ambiental, produção agropecuária e regularização fundiária em uma das regiões mais disputadas da Amazônia brasileira.