INOVAÇÃO E CIÊNCIA

Biobanco de algas preserva patrimônio genético e fortalece pesquisas para o agro

Criado em 1995, o acervo reúne 12 linhagens de algas marinhas e funciona como uma reserva genética para estudos

biobanco
Foto: reprodução/Planeta Campo

No Instituto de Pesca, em São Paulo, um biobanco reúne materiais genéticos de linhagens de algas marinhas desenvolvidas ao longo de quase três décadas de pesquisas, funcionando como uma reserva estratégica para a conservação da biodiversidade, a segurança da produção e o avanço científico.

A formação desse acervo começou em 1995, quando surgiram as primeiras linhagens cultivadas no Brasil. Em 2017, o instituto estruturou oficialmente o biobanco, que atualmente conserva 12 linhagens, entre esporófitos e gametófitos, em ambiente de temperatura e salinidade controladas.

Segundo a pesquisadora do Instituto de Pesca, Valéria Cress Gelli, o objetivo é preservar a diversidade genética das algas e garantir a disponibilidade desse material para futuras pesquisas e para a recuperação de cultivos em caso de perdas provocadas por fatores ambientais.

As primeiras algas cultivadas no país têm origem nas Filipinas, mas chegaram ao Brasil por meio do Japão. A partir desse material inicial, novas linhagens foram desenvolvidas ao longo dos anos, formando um patrimônio genético considerado único no país.

“Esse biobanco tem uma função muito importante, de conservação da diversidade genética, uma vez que a importação é bem complexa para estar trazendo essa alga das Filipinas novamente”, destacou.

Conservação para enfrentar eventos climáticos

Além de servir como repositório científico, o biobanco atua como uma ferramenta de segurança diante das mudanças climáticas.

De acordo com Valéria Cress, durante um episódio de chuvas intensas em Ubatuba (SP), por exemplo, a redução da salinidade da água comprometeu parte dos cultivos marinhos. Como as linhagens estavam preservadas em laboratório, foi possível repor rapidamente as algas no ambiente de produção.

“É uma segurança para que a gente mantenha o pulo genético, que a gente chama, para renovação e num caso de problema climático, a gente possa ofertar a mesma linhagem ao produtor”, explica.

Material disponível para pesquisadores

As diferentes linhagens apresentam características distintas, como coloração, concentração de pigmentos, teor de carragenana, velocidade de crescimento e produtividade. Essas diferenças tornam o acervo importante para pesquisas voltadas à biotecnologia, à produção de insumos agrícolas e ao desenvolvimento de novos produtos industriais.

Monitoramento reduz riscos de bioinvasão

Uma das espécies estudadas é a Kappaphycus alvarezii, amplamente cultivada em diversos países para a produção de carragenana, substância utilizada pelas indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética.

Embora seja uma espécie exótica, pesquisadores afirmam que décadas de monitoramento indicam que ela permanece restrita às áreas de cultivo no litoral paulista.

Desde 1995, equipes do Instituto de Pesca, da Universidade de São Paulo (USP) e de outras instituições acompanham a presença da espécie em costões rochosos e verificam a existência de estruturas reprodutivas no ambiente natural. Até o momento, os estudos não identificaram sinais de estabelecimento da alga fora das fazendas marinhas.

Experiência internacional amplia pesquisas

Em missão científica realizada nas Filipinas, a equipe brasileira teve contato com populações naturais da Kappaphycus alvarezii, encontrando exemplares com diferentes colorações e observando estruturas reprodutivas inexistentes nas condições de cultivo brasileiras.

Filipinas
Foto: Reprodução/Planeta Campo

A experiência contribuiu para ampliar o conhecimento sobre a espécie e reforçou as pesquisas desenvolvidas no país, voltadas ao cultivo seguro e ao aproveitamento das algas em aplicações de alto valor agregado para diferentes setores da economia.