
A produção de biocombustíveis não compromete a oferta de alimentos nem representa uma ameaça à segurança alimentar global. A avaliação é da professora Glaucia Mendes Souza, titular da Universidade de São Paulo (USP) e líder da Força-Tarefa de Biocombustíveis para a Descarbonização do Transporte da IEA Bioenergy. Segundo ela, a narrativa de que existe uma disputa entre alimentos e combustíveis não encontra respaldo nas evidências científicas.
Em entrevista ao podcast Conexão MBCBrasil – A Mobilidade em Pauta, a pesquisadora afirmou que a discussão costuma simplificar uma realidade muito mais complexa.
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“A bioenergia não é um jogo de soma zero. Um time não teve que perder para o outro ganhar”, disse. “O discurso da competição entre alimentos e bioenergia é muito simplista. O mais acertado é falarmos em food and fuel.”
De acordo com Glaucia, uma meta-análise internacional que reuniu 224 estudos sobre o tema concluiu que não há correlação estatística entre a produção de biocombustíveis, a partir de culturas comestíveis ou não, e a segurança alimentar. Segundo ela, quando existe algum efeito sobre os preços dos alimentos, ele ocorre principalmente em países desenvolvidos. Já nas nações em desenvolvimento, o impacto é inexistente ou até positivo para o acesso da população aos alimentos.
O Brasil é citado como um dos principais exemplos dessa convivência entre produção agrícola e bioenergia. Nos 50 anos do Proálcool, o país deixou de ser importador de alimentos para se tornar um dos maiores exportadores mundiais, ao mesmo tempo em que consolidou a produção de etanol e avançou na preservação ambiental com a implementação do Código Florestal.
“Dá para fazer as três coisas ao mesmo tempo”, afirmou a pesquisadora, ao citar a expansão da agricultura, da bioenergia e da conservação ambiental.
Para o presidente do Conselho do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, os números reforçam esse cenário. Segundo ele, em 2025 o Brasil produziu aproximadamente 37 bilhões de litros de etanol e quase 10 bilhões de litros de biodiesel, contribuindo para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO₂) ao substituir gasolina e diesel de origem fóssil.
Luzzi também destacou que cerca de 65% da vegetação nativa brasileira permanece preservada e que o país possui aproximadamente 100 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para ampliar tanto a produção de alimentos quanto a de bioenergia, sem necessidade de novos desmatamentos.
Fome está ligada à renda e ao acesso à energia
Na avaliação da pesquisadora, outro ponto frequentemente ignorado é a origem da insegurança alimentar. Segundo ela, a fome está mais relacionada à falta de renda e ao acesso limitado à energia do que à disponibilidade de alimentos.
“A fome no mundo não é causada pela produção de biocombustíveis”, afirmou. “Comunidades sem energia elétrica têm dificuldades de armazenamento de alimentos. A produção de biocombustíveis também leva bioenergia para esses locais.”
Ela destaca que a bioenergia pode contribuir para o desenvolvimento dessas regiões ao gerar renda no campo e ampliar o acesso à energia, inclusive em localidades onde a rede elétrica convencional ainda não está presente.
RenovaBio é apontado como referência
No campo regulatório, Glaucia cita o RenovaBio como um exemplo de política pública que combina descarbonização e preservação ambiental.
Segundo ela, produtores certificados que comprovam a produção de biocombustíveis sem desmatamento recebem Créditos de Descarbonização (CBIOs), negociados na Bolsa de Valores.
“Quem é certificado, produzindo biocombustível sem desmatamento, ganha CBIOs”, explicou. “Os registros do CAR incluem imagens de satélite. Dá para saber que não foi desmatada a área.”
A pesquisadora também lembra que, segundo estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil pode ampliar a produção de etanol sem expandir a área agrícola. Entre as alternativas estão o aumento da produtividade, o uso do milho de segunda safra, a recuperação de pastagens degradadas e o melhor aproveitamento de resíduos agrícolas. O potencial estimado é de aproximadamente 24 bilhões de litros adicionais de etanol.
*Com informações da assessoria de imprensa